• Alexandre Nagado

O Império dos Gibis

Livro narra a trajetória da editora que publicou revistas de quadrinhos que encantaram muitas gerações de leitores.

Por décadas, a Editora Abril foi a maior editora de quadrinhos do país, tendo encantado gerações com histórias da Disney, Turma da Mônica, super-heróis da Marvel e DC Comics, Hanna-Barbera e muitas outras marcas. Uma trajetória que se confunde com a evolução do mercado editorial brasileiro. Essa verdadeira odisseia de empreendedorismo é contada nas mais de 500 páginas do livro O Império dos Gibis - A Incrível História dos Quadrinhos da Editora Abril (2020), obra conjunta do editor Manoel de Souza (revista Mundo dos Super-Heróis) e do jornalista Mauricio Muniz, dois entusiastas da chamada Nona Arte.

Dividida em 10 capítulos, a obra começa apresentando a família Civita, oriunda da Itália. Saindo de lá, os irmãos César (1905~2005) e Victor Civita (1907~1990) se tornariam lendas do mercado editorial em diferentes países. César Civita fundou, na Argentina, a Editorial Abril, que obteve grande sucesso na década de 1940, atravessando períodos turbulentos na história do país.


Incentivado por seu irmão, Victor Civita criou no Brasil a Editora Abril, para tentar explorar um mercado de grande potencial. Na história oficial da Abril, consta que O Pato Donald foi a publicação que inaugurou sua produção, tendo sido lançado em julho de 1950. Porém, em maio do mesmo ano, uma certa Editora Primavera lançou a revista Raio Vermelho, adaptando para o português uma revista de quadrinhos de aventura da argentina Editorial Abril.


Depois do lançamento do Pato Donald, o nome da Editora Primavera no expediente da revista Raio Vermelho (na edição número 5) mudou para Editora Abril. O endereço que aparecia nos créditos permaneceu o mesmo, e as imagens do quadrinho com o expediente editorial são mostradas como prova. Esse rigor de jornalismo investigativo permeia a obra, apresentando a versão oficial e, quando há controvérsias, ouvindo diferentes relatos e interpretações.


Um outro ponto forte do livro é a descrição detalhada, com diversos depoimentos, de práticas que a Abril teve com seus quadrinhos de super-heróis em formatinho da Marvel e DC Comics. Uma delas era o uso de retoques de arte para adaptar as páginas que vinham dos EUA para o Brasil, visto que o formato para melhor aproveitamento de papel na Abril era de proporção diferente. Outra prática era a supressão de quadros, páginas e histórias inteiras para tentar otimizar ao máximo o que de melhor havia para ser publicado.


Como havia diferenças de épocas entre as histórias, e com cada universo ficcional tendo uma cronologia própria, a Abril utilizou uma alternativa. Foi criada uma "cronologia Abril", que alterava textos e imagens para que não se percebessem saltos na continuidade do material publicado. Sem tomar partido, os autores deixam que os responsáveis contem suas versões sobre o que aconteceu, sem deixar de lado o registro de vozes discordantes. Um ponto importante da obra é que ao longo dos capítulos aparecem vários comentários sobre a situação política e econômica do país durante os diferentes momentos da editora, permitindo uma contextualização essencial para entender bem os acontecimentos.

Um gibi da era de ouro dos formatinhos da Abril.

Nos capítulos finais, é mostrada a mudança de alcance da mídia quadrinhos, outrora vista como entretenimento de massas devido às tiragens milionárias. Aos poucos, por uma série de fatores, a HQ foi virando entretenimento de nicho, com tiragens cada vez menores. Menos produtos baratos e populares, mais produtos elaborados e caros, elitizando as publicações para compensar as perdas financeiras. Mas até isso foi encontrando seu limite, e a derrocada da Abril foi se tornando clara e inevitável.


Os precedentes para a criação da editora, sua "irmã" argentina, o empreendedorismo de Victor Civita, as histórias nebulosas (como a tentativa de passar a perna em Mauricio de Sousa), o glorioso auge do mercado editorial, os projetos nacionais, a mudança de perfil do público, os erros estratégicos e o final melancólico são retratados com imparcialidade, mas não com distanciamento. Os autores são entusiastas dos quadrinhos, passam emoção na medida certa e demonstram honestidade intelectual ao abordar os mais diferentes aspectos da produção editorial. Entusiastas do tema também são os personagens da história da Abril que forneceram importantes depoimentos, como Jotapê Martins, Primaggio Mantovi, Sérgio Figueiredo, Helcio de Carvalho, Lilian Mitsunaga, Paulo Maffia, Leandro Luigi Del Manto e diversos outros.


Na parte colorida, mais de 50 páginas são dedicadas a mostrar capas e cenas marcantes da editora, incluindo uma HQ de cinco páginas nunca antes publicada, que mostra o encontro entre o Pato Donald e Roberto Civita (1936~2013), o filho de Victor Civita que substituiu o pai na condução da empresa.


O projeto foi financiado coletivamente pela plataforma Catarse. Conforme a faixa de contribuição, diferentes brindes foram oferecidos. Na básica, estavam incluídos um pôster com capas selecionadas, marcador de livro e uma belíssima coleção de 30 cartões em formato de postal, com capas marcantes da editora e informações relacionadas à publicação de cada uma no verso. Em outra faixa de financiamento, os colaboradores receberam também encartes com dossiês sobre as revistas Heróis da TV e Capitão América, assinadas pelo jornalista e roteirista Roberto Guedes, além de pôsteres com as artes das respectivas capas. Posteriormente, mais três revistas com dossiês sobre os gibis Superaventuras Marvel, Homem-Aranha e Hulk. Os dossiês podem ser comprados em separado ou no pacote combo da editora.

Fruto de um dedicado trabalho de pesquisa, e tendo contado com a colaboração de muitos personagens dessa história, O Império dos Gibis é muito mais do que um item de colecionador para saudosistas de uma época empolgante para ser leitor de quadrinhos. É um precioso registro, sem cortes, da própria evolução de parte importante do mercado editorial brasileiro.

O Império dos Gibis - A Incrível História dos Quadrinhos da Ed. Abril (2020)

Autores: Manoel de Souza e Mauricio Muniz

Formato: 15,6 x 22,8 cm, com 544 páginas Editora: Editora Heroica (2020)

- Página do livro no site da editora


(Resenha publicada originalmente no blog Reflexo Cultural e devidamente revisada e atualizada pelo autor para postagem neste site.)

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