• Michel Barcellos

O individualismo e o caminho da servidão



O Caminho da Servidão é a obra de Friedrich Von Hayek que libertários e conservadores mais aplaudem, por traduzir a maior parte de seus sentimentos políticos, quando não todos seus sentimentos políticos por completo.


Depois de alguns anos apenas fazendo volume em minha biblioteca eu resolvi abrir o plástico que o embalava para ler o que a obra trazia. Eu poderia ter prestado mais atenção no caminho que o autor traçava, mas fui lendo meio que sem preocupação.


Até que na página 79 me deparei com a seguinte frase: “Essa situação assemelha-se em parte ao que ocorre quando várias pessoas decidem viajar em grupo sem fixar o destino da viagem: poderá acontecer que tenham de empreender uma jornada que deixe a maioria insatisfeita”.


Essa afirmação se opõe frontalmente à descrição de Santo Tomás de Aquino sobre “como é necessário que o homem, vivendo em sociedade, seja governado por alguém”, especificamente na comparação do governo com uma viagem de navio (Do Reino ou do governo dos príncipes ao Rei de Chipre):


“Com efeito, um navio, que se move para diversos lados pelo impulso dos ventos contrários, não chegaria ao fim de destino, se por indústria do piloto não fora dirigido ao porto; ora, tem o homem um fim, para o qual se ordenam toda a sua vida e ação, porquanto age pelo intelecto, que opera manifestamente em vista do fim”.


O que Hayek estava tentando descrever era como o individualismo era superior ao coletivismo e que protegia o povo do direcionamento à servidão, “já que o individualismo impede o direcionamento do povo a qualquer lugar” (botei entre aspas por ser minha a conclusão).


Na verdade, os pensamentos conservador e libertário concluem de forma diversa: que a falta de direção central leva o povo a direcionar-se para onde este o desejar. Esta conclusão é falsa, pois o povo não se governa a si mesmo. Um dos resultados práticos deste engano é a falta de concordância entre os conservadores na tentativa de combater os progressistas (ou como quer que se queira chamá-los).


Essa mesma linha de pensamento eu encontro no decálogo do conservadorismo, de Russel Kirk (A Política da Prudência), em A Nova Ciência da Política, de Eric Voegelin, em toda obra de José Pedro Galvão de Sousa – à exceção da última, que é apenas um catecismo –, em “A Escola de Salamanca e a fundação constitucional do Brasil”, de Marcus Boeira, e em todas as obras conservadoras que caem em minhas mãos.


A essência desta obra de Hayek está no seu título: O Caminho da Servidão, onde ele constata que o povo está sendo encaminhado. A parte final do título – “da Servidão” – já reflete um erro na identificação de para onde o povo está sendo encaminhado.


Este erro está na própria concepção do vocábulo “liberdade”, desvirtuado pelo Iluminismo com todas as suas formulações sobre a concepção de homem que eles trouxeram e propagaram, principalmente sob a denominação “homem natural”.


Na concepção de homem que os católicos (bem como muitos protestantes) não ignoram, sabe-se que a liberdade e a escravidão estão intimamente ligadas, não se opondo uma a outra, mas dando uma suporte a outra.


São Luís Maria Grignion de Montfort afirma no “Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem” que a única forma de ser verdadeiramente livre é através da escravidão a Cristo, sendo que a forma mais fácil de tornar-se escravo de Cristo é fazê-lo por intermédio de Maria.


Esse modo de percepção decorre da natureza humana, ensinada por Santo Agostinho e por Santo Tomás de Aquino como sendo incompleta: como criatura, o homem depende do Criador para a sua própria existência. Todos os entes criados dependem do Ente Criador. A diferença do ser humano é que este recebeu o dom do livre-arbítrio, que o permite escolher se deseja ou não viver de acordo com essa dependência natural.


Em oposição ao Criador, de quem dependem todos os entes, está o maligno, aquele que se revoltou contra Deus, tratando de adorar-se a si mesmo. Este era chamado de anjo de luz, e sob o poder dele encontra-se o mundo, conforme afirmam as Sagradas Escrituras em I João 5:19.


Deste ensinamento tira-se a lição de que não adianta travar planos para tirar o mundo do controle do maligno, e isto é correto. Por outro lado, podemos usá-la para detectar outra questão: como o controlador deste mundo tenta seduzir a cada um para deixar de se submeter ao Criador do mundo para se submeter ao maligno?


Bem, eu vou indicar aqui porque este é objeto da minha pesquisa e eu não vou apresentá-la até que eu a termine: o anjo de luz tem a sua filosofia das luzes, formulada no século das luzes e esta é o Iluminismo. Esta luz na verdade é a anti-luz, por se opor à verdadeira luz, que é o Evangelho.


Mas é desta anti-luz que partem todas as concepções de liberdade que delimitam todas as discussões políticas e garantem que elas não cheguem a lugar algum senão ao objetivo do anjo de luz, que é tomar os corações de todos os seres humanos e fazê-los adorá-lo diretamente.


Este objetivo parece tão colossal quanto impossível, pois para qualquer um que seja cristão é incabível qualquer ideia de deixar de sê-lo, e qualquer suposição de que no futuro pode ser obrigação adorar ao diabo é tomada como simples obrigação que será descumprida, e nenhuma sanção poderá fazer o cristão mudar de ideia, inclusive podendo até ser considerada como um belo atalho para o encontro com Deus.


Bem, graças à filosofia das luzes do anjo de luz (o Iluminismo) os povos vivem em estados que concebem o homem como ente inteiramente proprietário de si. Desta concepção surge o modelo moderno de democracia, que considera estes entes proprietários de si mesmos como capazes de governarem-se a si mesmos – em oposição à concepção tomista de governo.


Deste modelo de democracia advêm os modelos individualista e coletivista de governo, sendo que os dois impõem a desconfiança eterna, independentemente da submissão do cidadão a esta imposição. Os esforços que cada indivíduo deve empreender para não desconfiar do seu próximo são enormes e cada lei se dedica a impor mais uma potestade de desconfiança (como, por ex.: leis de divórcio, estatutos da criança, leis de proteção às mulheres etc.).


Cada pequeno passo que a filosofia iluminista avança garante a construção do engenho social trazido por Hobbes, onde a humanidade é uma multidão de todos contra todos.


Cristão ou não, o sentimento de desconfiança já foi absorvido por todos, e a prova mais cabal é como as pessoas estão lidando com as medidas sanitárias impostas ao mundo inteiro: todos estão mais desconfiados uns dos outros do que nunca. Máscaras são usadas dentro das igrejas, distanciamento social é mantido dentro delas e ninguém mais se abraça ou se toca.


Toda psicologia comportamental foi desenvolvida para que através da repetição de comportamentos se aderisse a crenças, a partir das conclusões rousseaunianas de que a sociedade molda o homem. O Iluminismo pode ser estabelecido como fonte de boa parte dos erros que são propagados hoje.


O Iluminismo estabeleceu uma concepção de religião que pode fazer um sujeito que vai à igreja toda semana passar a adorar o anjo de luz sem que perceba, pois não será de uma hora para outra, mas sim paulatinamente.


Ao mesmo tempo em que promovia uma concepção de religião que a colocava fora do centro da vida humana, o Iluminismo alavancava a concepção materialista de homem, iniciando com o individualismo e, mais adiante, o contrapondo com o coletivismo.


Ao tratar todas as discussões políticas pelo espectro materialista, absorve-se o comportamento materialista, que, pela psicologia comportamental, é meio de absorção da crença materialista. A Doutrina Social da Igreja rechaça o assistencialismo coletivista com o princípio da subsidiariedade, e nega o individualismo com o princípio da destinação universal dos bens.


Ao deslocar-se a doutrina da Igreja para posição satélite das discussões sobre quaisquer assuntos seculares, ou mesmo excluí-la, toma-se como base as doutrinas iluministas. Sendo a base da discussão iluminista, acrescentar Tomás de Aquino ou Aristóteles não vai mudar o fato de que o comportamento absorvido será o iluminista.


Absorvendo o comportamento, logo absorve-se a crença. Por isso é que hoje todos estão brigando contra todos, conforme a engenharia social do “homem natural”. Não importa se vão à igreja, todos já foram iniciados aos comportamentos e às crenças do anjo de luz.


Sobre o governo, tomemos a lição de Santo Agostinho (A Cidade de Deus): o fim último da cidade de Deus é conduzir seus cidadãos ao Paraíso e o fim último da cidade dos homens é conduzir seus cidadãos para o inferno. Sendo assim, é justo buscar-se que o governo se estribe nos moldes tomistas.


Ademais, deixo a chave para se desligar dessa engenharia social: quem não está disposto a tornar-se escravo já perdeu sua liberdade.