• Alexandre Nagado

"O Jardim das Aflições" - Por dentro do livro

Um breve olhar sobre a grande obra de Olavo de Carvalho.

Em 1990, o Museu de Arte de São Paulo - MASP - foi o palco de uma conferência sobre ética, promovida pela Secretaria Municipal de Cultura. Na época, a esquerda se projetava como tábua de salvação para o Brasil, representando tanto a honestidade quanto uma alternativa de poder.


Como parte do ciclo, o filósofo, professor e editor José Américo Motta Pessanha (1932~1996) deu uma palestra para cerca de 500 pessoas - com muitos formadores de opinião - acerca do conjunto de pensamentos que envolve o senso ético. Para embasar suas teorias, buscou referência em um antigo pensador grego chamado Epicuro (341 a 270 a.C.).


Na plateia, cuja maior parte se encantava com o que ouvia, estava um homem angustiado. Talvez o único conhecedor da obra de Epicuro entre os ouvintes, o filósofo e escritor Olavo de Carvalho estava inquieto. Considerado por Olavo como sendo uma figura menor da filosofia por incentivar a validação de uma "realidade" pessoal alheia à existência concreta, Epicuro foi pintado como um grande sábio.


Por esse motivo, Olavo sentiu um profundo incômodo ao notar como ideias estapafúrdias estavam sendo apresentadas com roupagem moderna, criando sequências de raciocínio que poderiam abrir espaço para uma relativização da ética e dos valores morais e sociais para servir a interesses pontuais. Parecia uma preparação, um adestramento para caminhos políticos que causavam arrepios em Olavo. De volta à sua casa, escreveu vigorosamente refutações à palestra de Motta Pessanha, mas depois arquivou tudo e resolveu não polemizar. Porém, como o assunto não o deixava em paz, tempos depois, começou a escrever o que se tornaria um de seus livros mais emblemáticos.


Tendo como ponto de partida suas percepções pessoais sobre o discurso de Pessanha, Olavo explica o epicurismo e seu apego ao relativismo, que indicava aos iluminados um "Jardim das Delícias", um lugar onde cada um poderia imaginar para si uma realidade e esta seria tão real quanto o que fosse concreto e palpável. Isso, para Olavo de Carvalho, abre caminho para um relativismo hipnótico que afasta o homem do conhecimento da realidade e da busca da verdade. Não por acaso, ele vislumbrava para os seguidores de Epicuro um mergulho no que seria um "jardim das aflições", com sérias implicações sociais e políticas. Indo além, suas divagações apontam a evolução do pensamento filosófico na sociedade ocidental e como ela teve papel no Império Romano e na própria história das civilizações do ocidente.


Após conquistar todo o mundo ocidental conhecido, o Império representava um conceito de hegemonia, com sua própria visão da religião como sendo submissa ao Estado. E através dos tempos, todos os grandes projetos imperialistas visavam recriar o Império Romano, sendo os EUA a mais bem acabada e moderna, ao menos na época do livro. (Hoje sabemos que o novo Império vem do Oriente...)


Com idas e vindas ao tema inicial, que a cada retomada se amplia tal qual uma espiral que gira em torno de um mesmo conjunto de conceitos, O Jardim das Aflições é uma obra densa e complexa, com grande coerência e que abrange praticamente todo o pensamento filosófico ocidental. Uma tarefa para pouquíssimos.

Um crítico literário chegou a escrever que a leitura está ao alcance do leitor comum, mas isso decorre de certo otimismo, pois é uma obra densa e repleta de citações. Há também o uso de termos extraídos do inglês, francês, latim, grego, espanhol, italiano e o que mais estivesse ao alcance do autor. Porém, um dos grandes méritos do livro é não se perder, retomando as ideias iniciais em certos pontos e expandindo constantemente seu raciocínio e aplicações ao formar uma visão crítica da evolução política das sociedades ocidentais. Olavo escreve com clareza e precisão, conduzindo bem o leitor por ideias abrangentes e complexas.


A primeira edição da obra saiu em 1995, pela É Realizações. Em janeiro de 2015, foi lançada a terceira edição, já pela Vide Editorial, com um novo e importante complemento, na forma de uma entrevista com o autor. Nela, o filósofo comenta suas percepções políticas mais recentes e acrescenta um dado que considera importante. Na época do livro, ele confessa, sua visão sobre a sociedade americana era fruto do que chegava ao Brasil via grande imprensa. Viver em uma pequena cidade americana mudou sua percepção, principalmente sobre as camadas mais conservadoras da sociedade.


A visão de um típico americano conservador do interior como sendo um "caipira" sem informação deu lugar a uma visão clara de uma parcela esclarecida da sociedade. Uma gente que lê, se informa e tem acesso a uma grande variedade de autores e linhas de pensamento. É esse o ponto que mais surpreendeu Olavo e que ele fez questão de deixar claro na entrevista publicada como posfácio à terceira edição.


O livro deu origem a um documentário sobre Olavo de Carvalho, lançado em 2017 através de financiamento coletivo e com direção de Josias Teófilo. Com uma trajetória marcada por polêmicas, o filme sofreu vários boicotes (alguns com violência) de militantes de esquerda, ávidos por censurar o pensamento contrário.


Considerado pelo próprio autor sua obra definitiva, O Jardim das Aflições entrega ao leitor um monumental e desafiador ensaio sobre nossa sociedade e os pensamentos e ideias que a movimentam. E, ao emergir da leitura, o mundo onde vivemos se torna ainda mais desafiador.


O JARDIM DAS AFLIÇÕES De Epicuro à Ressurreição de César: Ensaio sobre o Materialismo e a Religião Civil

Autor: Olavo de Carvalho

Prefácio: Bruno Tolentino Formato: 23 x 16 cm, com 464 páginas Lançamento: Vide Editorial


E X T R A :

Mini-glossário com alguns termos e expressões presentes em O Jardim das Aflições:

(Só para facilitar um pouco a vida dos leitores...)


Ad hoc - Do latim "para isso...", "para essa finalidade..."

Conditio sine qua non / Sine qua non - Do latim "Condição sem a qual não pode ser."

Das ewig-weibliche zieht uns hinan - Do alemão "O feminino eterno nos leva para cima.", uma citação de Goethe.

Enteléquia - Na filosofia de Aristóteles, é a realização plena, completa, de uma tendência.

Eppur... - Do italiano "No entanto...". É um fragmento da frase "Eppur, si muove" (ou "No entanto, se move."), que teria sido dita por Galileu Galilei no tribunal da Inquisição.

Ersatz - Do alemão "imitação artificial".

Facilis est descensus averni - Do latim "O caminho do mal é fácil de trilhar."

Mutatis mutandis - Do latim "Mudando o que precisa ser mudado."

Quetre cose hanno bisogno di um pó de confusione - Do italiano "Essas coisas precisam de um pouco de confusão."

Urbi et orbi - Do latim "À cidade e ao mundo", uma bênção tradicional dada pelo Papa por ocasião das festividades de Páscoa e Natal.

Volonté generale - Do francês "desejo geral".

Vouz voilá dans de beaux draps - Do francês "Você estará aqui com lindas roupas."

Zoon politikon - Do grego "animal político".


- Resenha publicada originalmente no blog Reflexo Cultural e devidamente revisada pelo autor para postagem no ShockWave News.