• Evandro Pontes

O paspalho individual e o imbecil coletivo de direita

A relação do cidadão com o poder nasce primeiro no campo cultural.


Olavo alertou que para se ocupar o espaço no Poder, sob o ponto de vista político, é necessário antes consolidar a presença do ideário conservador no CAMPO CULTURAL.


Chegamos a presidência sem conhecer as dinâmicas da luta cultural, espaço que as esquerdas ocupam há pelo menos 100 anos.


O político e o influencer “didireita” não conhecem essa dinâmica. Pior: zombam e desprezam quem conhece. Chamam de “direita livrinho”, fazem troça de quem monta cursos para ensinar esse bando de inútil a pensar corretamente


Um principio básico da estrutura narrativa tópica na literatura clássica elevada está no reconhecimento do HERÓI.


A saga do Herói é um dos temas mais profundos e desafiadores no estudo da literatura clássica. Bruno Snell, igualmente citado por Olavo, é uma das maiores influências no papel do herói como solidificador do espírito.


Tenho 3 estudos sobre esse tema em um livro que escrevi em 2018 e ate hoje ninguém quer se dignar a publica-lo. NÃO PAGAREI PARA PUBLICAR E NEM O PUBLICAREI DE GRAÇA, como já me propuseram inúmeras vezes para quebrar esse “boicote”.


Por que ninguém se interessa em saber como essas dinâmicas funcionam? Simples: porque elas desmascaram IMPOSTORES.


E mais: a SAGA DO HERÓI não serve apenas para ler HOMERO e HESÍODO. Ela permite que você leia e COMPREENDA um mangá, um HQ e outras formas modernas de exposição do herói.


Por falar em HQ proponho então que tratemos de um dos heróis de maior sucesso durante o século XX: BATMAN.


Quem compreende os aspectos técnicos de construção de um herói, aproveita bem mais as aventuras do Cavaleiro das Trevas. Batman é o herói típico da modernidade. Assim como o CORINGA é o VILÃO típico dos tempos atuais.


O CORINGA não é um “palhaço qualquer”: ele é o mal encarnado. É o incorrigível e irreconciliável na sua forma mais absoluta. O discurso final do Joker quando ele é pego pelo Batman em “Cavaleiro das Trevas” de Nolan, na excepcional interpretação de Ledger, esquadrinha-se exatamente o problema do mal essencial representado pelo Joker:


BATMAN

This city just showed you it's full of people ready to believe in good.

(The Joker looks up at him. A twinkle in his eye.)


THE JOKER

Till their spirit breaks completely.

Until they find out what I did with the best of them. Until they get a good look at the real Harvey Dent, and all the heroic things he's done.

(indicates ferry)

Then those criminals will be straight back onto the streets and Gotham will understand the true nature of heroism.

(off look)


THE JOKER (cont'd)

You didn't think I'd risk losing the battle for the soul of Gotham in a fist fight with you? You've got to have an ace in the hole. Mine's Harvey.


O CORINGA não é um vilão qualquer. É um vilão que tem por propósito desafiar o conceito de heroísmo: ele visa DESCREDENCIAR A SAGA DO HERÓI. É o vilão que não apenas quer derrotar o herói, mas ele vai além: quer incutir na cabeça do cidadão comum quer "ser herói é essencialmente ruim".


Nesse sentido o JOKER da Graphic Novel de Lee Bermejo com roteiro de Brian Azarello é perfeito na narrativa da origem de sua vilania. Foi a fonte principal de inspiração de Ledger e é hoje o mote central do NEOCON - "desafiar os poderes é ruim; não os desafie, conforme-se com ele; ceda; negocie; deixe 'anéis na mesa' para ganhar 'algo em troca' para o bem da pauta conservadora". O neocon tem exatamente o mesmo espírito de um Joker.


Na mesma proporção temos a Graphic Novel “The Man Who Laughts” de Ed Brubaker, um clássico pouco valorizado que cruza a saga dos Red Hood com a origem da vilania do Coringa e deixa a lição de que o mal encarnado tem por objetivo final descredenciar e zombar da Virtude Cardinal da CORAGEM (a essência de um herói que se sacrifica pelo todo).


A inspiração gráfica da HQ não só de Brubaker mas da ideia do Joker como um todo formulada por Bob Kane, foi obtida a partir de analises do filme The Man Who Laughts de Paul Leni de 1928. Leni foi um dos mais importantes diretores do cinema mudo alemão pré-nazismo e imigrou para os EUA (assim como Fritz Lang), levando suas técnicas do cinema expressionista alemão. A personagem de Conrad Veidt (o mesmo cara que trabalhou como Cesare no Gabinete do Doutor Caligari, o maior clássico do expressionismo alemão) teria sido a inspiração para Bob Kane criar o seu maior vilão na saga do herói Batman.


Nesse contexto todo, a visão de Todd Phillips de 2019 para o seu "Joker" é um enorme DESSERVIÇO ao que representa essa personagem na história desde a sua inspiração fatal em 1928, como um destruidor de heróis.


Quando a IstoÉ pinta Olavo e Abe como “bobos da corte”, cometeram obviamente um erro monumental, sobretudo se conhecessem o que os estudos clássicos de literatura dizem a respeito do papel do clown, principalmente em Shakespeare. Tenho também um texto sobre os “Clowns de Shakespeare” que NÃO PUBLICAREI DE GRAÇA onde já ofereci aqui na Shock Wave News apenas uma breve noção do que é essa fórmula (vide https://www.shockwavenews.com.br/post/a-crise-de-autenticidade )


Isso é BEM DIFERENTE do que retratar o PR como JOKER.


Não me espanta nada deputags acharem engraçado essa transfiguração do PR no papel de um vilão, assassino, pedófilo, cuja obsessão é destruir qualquer conceito de HEROÍSMO, ainda que na versão errada e distorcida de Phillips de 2019.


Quem acha graça e bate palma para a capa da IstoÉ não esta conseguindo calcular a dimensão do ESTRAGO que essa colagem gera para a imagem longo-prazo do PR.


Figurar o PR na pele de um dos piores violões da historia não pode ser respondido com memes.


Isso que da botar deputado pra fazer uma função QUE NÃO É SUA. É o paspalho individual inaugurando o Imbecil Coletivo da direita.


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