• Evandro Pontes

O Peru desgovernado


Na madrugada de ontem o Congresso peruano votou pelo afastamento (impeachment) de seu então presidente, Martín Vizcarra.


Os deputados de maioria fujimorista declararam que Vizcarra padece de "incapacidade moral permanente" e que por isso não tem condições de seguir no cargo de presidente. É como se os deputados tivessem detectado uma imoralidade inata em Vizcarra que nem Deus resolve.


A votação foi tomada em tempo recorde e surpreendeu até ao próprio Vizcarra.


Vizcarra é um político de centro, uma espécie de "Temer Andino". A diferença, porém, está nos índices de aprovação: Vizcarra conta com a simpatia do povo e mantém alto índice de aprovação ao seu governo.


O vírus chines, desde que chegou ao Peru, quase se tornou um problema político para Vizcarra: os números de infectados e óbitos dispararam, mas ao contrário de todos os países em que esse fenômeno afetou a popularidade do mandatário local, no Peru, o povo não jogou a culpa do ataque biológico no colo de seu presidente - sua popularidade seguiu altíssima.


Há quatro semanas atrás, parlamentares entraram em pauta contra Vizcarra promovendo-lhe ataques sob a alegação de "corrupção". Curiosamente, Vizcarra era um dos mais ferrenhos soldados contra a corrupção no Peru. Isso obviamente tornou-o vítima do "acuse-o do que você faz": Vizcarra foi governador da região de Monquega entre 2008 e 2011 e teriam achado, lá em seu passado, uma licitação em que ele teria levado um troco. Não há uma prova sequer do ocorrido. É pura fanfic.


Mas o que importa, por ora, é que leitor da Shock Wave News saiba: (i) qual efeito disso para o Brasil e para o mundo; (ii) porque isso aconteceu; (iii) e como isso aconteceu (qual seja, em outras palavras, como Vizcarra permitiu que isso acontecesse com ele, já que ele detém, como Bolsonaro no Brasil, a simpatia da maioria da população).


Vamos aos fatos.


1. COMO ISSO ACONTECEU


Para entender como isso aconteceu não apenas com Vizcarra, mas com a nação peruana, que sofre o seu segundo impeachment em menos de dois anos, temos que voltar para os anos 90 e entender quem foi FUJIMORI, um cara muito próximo de FHC e que inclusive foi por ele condecorado com a Ordem Cruzeiro do Sul (comenda que Jânio deu também a Che Guevara).


A diferença entre FUJIMORI e CHE é que Lula, anos depois, cassou a comenda de FUJIMORI mas não a de Che. Coisas do Brasil.


Mas quem foi FUJIMORI?


Alberto Fujimori foi o presidente do Peru no mesmo período em que FHC foi do Brasil (assumiu um pouco antes e fez 3 mandatos, o que lhe permitiu mais tempo de assento). Fujimori foi responsável pela estabilização econômica do país e foi um reorganizador do "Centrão" peruano, criando uma casta de políticos fieis a ele e ao seu projeto de tonalidades globalistas.Parece alguém que vocês já conhecem?


No âmbito local, Fujimori foi o responsável pela completa destruição do projeto Maoista do chamado Sendero Luminoso, um dos grupos terroristas mais violentos na história da América Latina.


De descendência japonesa, Fujimori foi implacável com seus adversários.


Em meio a guerra contra o Sendereo Luminoso, deputados de esquerda tentavam bloquear as suas ações - em reação, Fujimori deu um golpe de estado em 1992 de onde não teria sido possível acabar com o terrorismo no Peru.


Após a reabertura do país para novas eleições, sob uma nova Constituição, Fujimori vence nas urnas, o que teria lhe aberto caminho para reformas econômicas que lhe fizeram mais popular ainda. Fujimori investiu pesadamente em projetos de privatização que tornaram o Peru um potência latino-americana.


Fujimori vai as urnas para um terceiro mandato e vence.


Mas Fujimori tinha dois defeitos: ele não gostava (e ainda não gosta) de ser contrariado e era casado com uma "muié" que também não gosta de ser contrariada. Seu divórcio tornou-se um caso estrondoso e até ridículo publicamente, mostrando como uma "muié" pode atrapalhar a política.


O divórcio com Susana Higuchi levou a ex-esposa a dar aos inimigos a munição de que precisavam: ela alegava constantemente que Fujimori era autoritário e corrupto ("rótulos" que o levaram a uma série de condenações anos depois e que lhe rendem tempo de cadeia até hoje). O divórcio, ocorrido em 1995, só veio a gerar efeitos em 2000. No tempo em que ocorreu, Fujimori "destituiu" Susana do cargo de primeira-dama e entregou-o à filha, Keiko, em uma atitude absolutamente esdrúxula.


No início do seu terceiro mandato, Fujimori começou a ser questionado pela oposição de fraude eleitoral. A tese jurídica que autorizou o seu terceiro mandato (usada no Brasil, inclusive, por Geraldo Alckmin para concorrer um terceiro mandato ao governo do estado de SP) já era mais do que controversa, mas o resultado estrondoso nas urnas começou a ser fortemente questionado. Fujimori superou os 75% dos votos válidos a seu favor: nem a fraude de Biden conseguiu ir tão longe.


A oposição começou a pedir a nulidade da eleição e Fujimori, de seu lado, passou a fazer concessões políticas para integrantes daquele Centrão que ele criou, mas que já sinalizavam de abandoná-lo.


Essas concessões deram força para que o removessem do cargo em uma ação política, quando o escândalo de Montesinos estoura e, posteriormente, se confirma: a "muié" sabia e tinha razão - Fujimori era de fato bem corrupto. Autoritário todos já sabiam desde 1992.


O apoio derreteu, Fujimori cedeu, entregou o cargo e convocou novas eleições. Valentín Paniágua fez o mandato tampão até as eleições que colocaram no poder Alejandro Toledo, um dos mais próximos aliados de Lula. Uma nova esquerda globalista tomava o poder no Peru para se contrapor ao neoconservadorismo fujimorista. Os conservadores, desde os anos 1980, são figuras politicamente proibidas e canceladas no país.


Toledo, enrolado com problemas de corrupção, permite que a política peruana fosse mais ainda para a esquerda: Alan García é eleito e, na sequência, o Coronel Ollanta Humala.


García é uma espécie de Freixo peruano; Humala, um Santos Cruz andino.


Humala, durante sua presidência, foi forte aliado de Lula e Dilma, sendo um dos mais proeminentes líderes do movimento giro a la izquierda (conhecido nos EUA como "pink tide" ou "turn to the left"). Apesar de ter liderado combates contra o Sendero Luminoso, Humala assume a sua posição nessa New Left mais liberal e totalmente globalista.


A essa altura Fujimori já estava preso e sofria processos de "violação de direitos humanos" por conta de seus combates contra não apenas o Sendero, mas também inúmeras guerrilhas urbanas, sobretudo no caso "Barrios Altos X Grupo Colina" - trata-se de uma guerra urbana entre um grupo terrorista e uma milícia alinhada a Fujimori. Era o que as cortes globalistas precisavam para chamá-lo de genocida, rótulo que ele carrega até hoje por conta dos combates urbanos travados contra grupos terroristas por cidadãos armados.


No tempo de Humala o fujimorismo estava em seu ponto mais baixo. E foi nesse momento que Pedro Paulo Kuczynski entra no cenário político peruano vencendo as polêmicas eleições de 2016 contra... Keiko Fujimori, a filha que substituiu a mãe no cargo de primeira-dama em 1995.


Com Fujimori preso, Keiko é a guardiã do fujimorismo no Peru, uma espécie de centrão neocon que domina a política por lá desde o início dos anos 1990.


E é aqui que o problema que hoje vivemos, nasceu. Sem chances de vitória, Kuczynski, conhecido com PPK no Peru (piada pronta, ok), chega a criar um partido que faz menção a sua sigla pessoal: Peru por el Kambio (e "cambio", de mudança, é grafado com "K" propositalmente).


PPK nunca obteve mais do que 15% nas pesquisas do Peru (ok, boomer - piada pronta). Terminou em 2o lugar no primeiro turno, atrás de Keiko, com 21%. Era o equivalente a 3,22 milhões de votos. Keiko, com 39%, teve 6,11 milhões.


Os demais somados tinham 4,70 milhões de votos. Se todos os opositores de Keiko resolvessem votar em PPK, ele terminaria com 7,92 milhões de votos.


Mas eis que o resultado final deu a vitória a PPK com 8,59 milhões de votos contra 8,55 milhões de Keiko: diferença de pouco mais de 40mil votos para PPK.


Esse resultado surpreendente teria vindo dos votos em branco: no primeiro turno foram 2,22 milhões contra apenas 149mil votos em branco no 2o turno. Embora muitos aventaram que o anti-fujimorismo estava forte no Peru, PPK nunca se livrou do cheiro da fraude.


Pior: o partido de Keiko, sozinho, conquistou 73 dentre as 130 cadeiras disponíveis no Congresso colocando ainda mais em dúvida que o Peru era orientado pelo anti-fujimorismo. A derrota de PPK no Peru (piada pronta, boomer) começava no próprio dia de sua vitória.


Ele e seu vice, Martín Vizcarra, desde 2016, não tiveram um minuto de descanso (sim, o Peru não descanso à PPK...).


O Congresso peruano vem atuando com políticas de bloqueio e nenhuma medida tentada pelo titular do poder executivo obtém êxito no Congresso. PPK tentou fazer alianças com o Centrão mas o que ele mais conseguiu foi ceder espaço em troca de novas traições.


Seu passado como empresário mostrava digitais bem visíveis nos negócios da Odebrecht. Logo a Operação Lavajato do Brasil cruzou a fronteira e atingiu em cheio o Amoedo andino, que atende pelo nome de PPK.


PPK ainda tentou ganhar os fujimoristas concedendo perdão humanitária para Fujimori, mas a Justiça peruana cancelou o perdão o jogou Fujimori de volta para a cela. Esse gesto de simpatia humanitária não fez o menor efeito nas articulações de Keiko, que diga-se de passagem acabou presa em 2018 pelo mesmo motivo: excesso de amizade com a Odebrecht. Dentre as articulações de Keiko, as mais importantes pairam sobre o neopentecostalismo peruano - evangélicos no Peru passaram a ser uma pesada força política da mesma forma que ocorreu no Brasil.


Nessa mesma época, Toledo (ex-presidente) também foi preso. PPK, um intelectual admirável e contra quem nenhuma prova foi produzida (Keiko acabou condenada, PPK sequer foi denunciado), sucumbiu ao excesso de soja no sangue e renunciou. Como governante, foi politicamente simpático a políticas públicas relacionadas à ideologia de gênero e muitas pautas associadas ao "marxismo cultural" que agradava e apaziguava a turma da jovem Mendonza. PPK curte um diálogo, até hoje.


Vizcarra assumiu, mas o fujimorismo foi com ele também implacável: em menos de 2 anos caiu, na madrugada de ontem, pelas mãos desse "Centrão" fujimorista com franco apoio da esquerda, em um ato de pragmatismo político dos mais repulsivos - para eliminar seus adversários da direita, os neocons fujimoristas se uniram à esquerda na típica tática do "the enemy of my enemy is my friend".


2. PORQUE ISSO ACONTECEU


Uma vez que os fatos estão postos, fica mais fácil entender as causas e as razões de seus acontecimentos.


Fujimori empreendeu forte cruzada contra a esquerda local e de fato deu um fim no terrorismo esquerdista do Sendero Luminoso, mas Fujimori usou a técnica de "usar as armas da esquerda para combatê-la": eis ai um dos mais marcantes traços do neoconservadorismo. Bush II agiu da mesma forma quando foi presidente e abriu espaço para o herdeiro político de Alinsky, Barack Hussein. Bolsonaro está indo pelo mesmo caminho e abrindo espaço para a new left brasileira de Moro, Huck, Doria, Mandetta et caterva que já comentamos em artigo anterior.


No Peru assistiu-se a aniquilação dos projetos da velha esquerda, mas a nova esquerda teve paz para até construir uma presidência (Alan García) e uma candidatura que quase foi ao segundo turno em 2016 (Verónika Mendoza, a Manuela andina). Mendoza é conhecida por ser uma feminista radical e uma forte defensora dos povos "afroperuanos". Está em franca ascensão política no Peru e conta com apenas 35 aninhos de idade para aporrinhar por pelo menos os próximos 40. Tem todo o suporte do Grupo PUEBLA (leia-se, Foro de SP) para o seu (deles) projeto político. Na direita (seja a neocon, seja a sojada) nenhum líder dessa idade foi forjado; nem lá no Peru, nem aqui no Brasil.


Por aqui a esquerda já gerou candidatos a presidência como Boulos (38 anos), que hoje ao lado de Manuela (39 anos) e Covas (40 anos) ocupam o cenário das disputas locais, onde o bolsonarismo apostou em figuras como Russomanno (um loser de 64 anos) e Crivella (um "chuta-santa" de 63 anos).


Essa esquerda cresceu e deve ocupar um importante espaço na política peruana nos próximos anos, seja porque essa tendência está muito forte na América Latina, seja porque neocons e liberais preferiram se estapear até a "morte política", falhando no combate à esquerda que nascia debaixo do nariz de todos. No Brasil está acontecendo exatamente a mesma coisa.


Em comum, todos esses partidos acordaram que para a suas respectivas sobrevivências políticas, seria fundamental fuzilar o projeto conservador no Peru. No Brasil a mesma coisa está ocorrendo...


O projeto conservador fundado por Manuel Cisneros foi enterrado pari passu com o conservadorismo brasileiro, da mesma forma e no mesmo período: com o golpe militar de Juan Velasco em 1968, o Movimento Democrático Pradista foi extinto e quando foi reinstituído à legalidade após o fim do regime militar peruano, não resistiu às eleições dos Anos 1980 e foi definitivamente sepultado.


Hoje o Peru não conta com qualquer força conservadora, cristalinamente impedida de existir por conta dessa briga de foice no Centrão inaugurada pelo Neocon Fujimori. No Peru não há uma universidade, jornal, rádio, canal de televisão ou, last but not least, uma porra de um partido político conservador.


O resultado disso? Bem, a noite de ontem só mostrou mais um episódio da última temporada.


3. QUAL O EFEITO DISSO PARA O BRASIL E PARA O MUNDO


O efeito imediato, no Peru, é a abertura de espaço que o fujimorismo deu aos projetos de Alan García e Verónika Mendonza, representantes da Nova Esquerda peruana. A nova esquerda tem zero de laços com o Sendero, nenhuma relação com o sindicalismo e o socialismo soviético, mas tem muita pauta globalista correndo nas veias, várias estratégias identitárias para tomada de poder e, last but not least, muito dinheiro, tempo, paciência e apoio da China.


Verónika Mendonza é membra honorária e fundadora do GRUPO PUEBLA, a nova versão do Foro de SP, da qual ela era, item, uma integrante.


Essa ocupação de espaço que foi franqueada gratuitamente pelo fujimorismo e ingenuamente pelo pepequismo (chamemos assim a prudência e sofisticação do PPK) segue na linha de não dar espaço ao conservadorismo em troca de uma disputa de nervos contra seus verdadeiros algozes, a esquerda.


O que ocorreu no Peru ontem a noite beneficia diretamente o Grupo PUEBLA e sua representante peruana, Verónika Mendonza


No Brasil, é lição importantíssima, assim como deveria ser a da Argentina de Marci e a do Chile de Piñera.


Para o Mundo, é seguro dizer que a China ganha mais um território em seu tabuleiro de War.

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