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O Roteiro de Queda de Jair Bolsonaro

Por Evandro Pontes


Interrompi meu retiro espiritual para cuidar dessa tolice mundana, que está anunciada há meses, mas que até então nenhum roteiro de queda tinha se tornado público ou explícito.


Pois bem: como esse roteiro surgiu e obviamente ninguém está comentando algo tão óbvio, empresto aqui os minutos que resgatei do espírito a você, leitor e leitora.


Os adversários de Jair Bolsonaro descobriram o seu “calcanhar-de-aquiles”: não é o Flávio, nem o Queiroz, nem a Marielle, nem a Michelle e nem mesmo seu maquiador – nenhum desses assuntos abalaram o Presidente como um único, certo e específico o fez. Refiro-me à China.


A China é o calcanhar-de-aquiles de Jair Bolsonaro.


Meses atrás, a primeira seta foi lançada na panturrilha-de-aquiles do Presidente: seu filho, Eduardo, humilhado publicamente pelo Embaixador da China, foi obrigado a se retratar. Antes, porém e ao longo de todo 2019, o Vice-Presidente Mourão testou sua paciência sempre com esse tema: esdrúxulo defensor do 5G, as falas de Mourão mexiam mais com os nervos de Bolsonaro do que qualquer postagem do Noblat.


Seu entorno de apoiadores, de Carla Zambelli e Jorge Oliveira, sempre foram públicos e ostensivos admiradores do regime de “comunismo light” de um país cuja constituição traz em seu preâmbulo estas singelas palavras: Both the victory of China's new-democratic revolution and the successes of its socialist cause have been achieved by the Chinese people of all nationalities under the leadership of the Communist Party of China and the guidance of Marxism-Leninism and Mao Zedong. Já o artigo primeiro traz esta regra linda: Article 1 [Socialist State] (1) The People's Republic of China is a socialist state under the people's democratic dictatorship led by the working class and based on the alliance of workers and peasants. (2) The socialist system is the basic system of the People's Republic of China. Sabotage of the socialist system by any organization or individual is prohibited.


O governador João Dória foi astuto e notou essa fragilidade, desde a campanha de 2018, em relação à capacidade de Bolsonaro de ceder para a China em aspectos de natureza variada. Dória não tem os pudores que Bolsonaro tem diante de um texto constitucional como esse e politicamente, apostou todas as fichas na bandeira vermelha das estrelas amarelas – a roleta parou, semana passada, justamente com a “bola da vez” em cima da canaleta com essa bandeira.


O blog O Antagonista, o maior veículo da imprensa anti-bolsonarista a trabalhar sistematicamente pelo impeachment de Bolsonaro, é disparado o maior defensor da Vacina Chinesa (de mais nenhuma outra e só dessa) pois, como Dória, percebeu que o antagonismo do Presidente em face da China poderia levá-lo à queda. Como bons liberais que são, operam firmente sem valores políticos a ser defendidos, atuando sempre ad hominem e forma pragmática. Bottom line, gente como Mainardi olha para um texto como o do artigo 1º da Constituição da China e não o leva a sério, assim como eles, chineses, não levam a sério gente da estirpe dele, Mainardi.


Todas essas premissas de ação já haviam sido colocadas e noticiadas aqui no Shock Wave News, bem como em nossos canais de Telegram. Está tudo lá, de meses atrás, para quem quiser conferir: Dória, China, Antagonistas, vacinas.


Até então, contudo, apesar de postas as premissas e elementos (as peças), nenhum plano concreto de ação havia sido explicitado. Esse plano, ao que parece, foi revelado de forma bem explicíta hoje. Trust the plan, estão dizendo do “lado de lá”.


E o líder desse plano atende pelo nome de Fábio Faria.


Sim, Jair Bolsonaro cairá pelas mãos ou pelas ações de Fábio Faria, mais cedo ou mais tarde.


Como bom Ministro de Propaganda, ele não será o agente direto dessa queda, mas já começou a construir o cenário de fatos, elementos e argumentos que serão usados para que essa queda ocorra com tranquilidade e antes de precisarem das urnas para isso.


Fábio Faria não é e nunca foi um bolsonarista.


Também não é e nunca foi um conservador, nem tampouco um liberal. Acredito até que nem socialista seja.


Faria é um político profissional sem qualquer vínculo ideológico ou pudor axiológico. É a 3ª ou 4ª geração de uma família de políticos poderosos do Nordeste brasileiro.


Ingressou na política nos tempos de Lula, de quem foi aliado fiel e assim se manteve nos tempos de Dilma. Com a sua queda, apoiou ostensivamente o governo Temer e agora surge como um dos homens mais fortes do governo Bolsonaro. É um vitorioso da política, pois chegou no alto escalão do governo com 0,001% dos votos de Bolsonaro e apoiando um de seus adversários na campanha de 2018. Faria apoiou Alckmin.


Faria é filiado ao PSD, partido fundado por Gilberto Kassab, que integra o governo Dória em SP e surgiu na política sob as bençãos de Paulo Maluf. Com a “morte política” de Maluf, Kassab soube se movimentar e logo se tornou agente importantíssimo do caudilho PSDBista José Serra, em SP.


Kassab, em momento algum ficou órfão politicamente e ao perder Maluf para o “Mário Guimarães”, associou-se ao Sensei Serra, de quem logo tornou-se discípulo, muito mesmo por conta de sua afiliação partidária junto ao que chamo de “Partido Trainee do PSDB”, a saber, o DEM.


O DEM, até mesmo nos tempos de PFL, sempre atuou como “programa de Treinee do PSDB”. É para lá, por exemplo, que vão parar os jovens do MBL – todos, sem exceção.


De lá, já maduro, Kassab não alçaria a liderança desse partido satélite do PSDBismo, o DEM: restaria a ele ou migrar para o PSDB ou abrir legenda própria. É nesse contexto que surge o PSD, seu partido, que deu abrigo a inúmeros políticos do fisiologismo de Brasília, disfarçando esse apoio ao PSDB, que só fica explícito em eleições e em votações-chave no Congresso. A tarefa de muitos políticos do PSD é meramente entrar em governos como aliados e levar as informações para dentro do próprio partido, para que as info sejam usadas em benefício de outros esquemas de poder ligados ao inquilino, mas jamais em favor do landlord que dá abrigo ao inflitrado.


Eis, leitor e leitora, a “casa partidária” de Fábio Faria e como ela funciona.


Ele age, portanto, como “gabinete de aluguel” praticando o mais violento fisiologismo político, que não tem pudores de apoiar Bolsonaro com a mesma desenvoltura que apoiou Dilma, até o último segundo do impeachment (caso de Kassab).


Mas não se engane: esse apoio não significa que Fábio Faria se associa ao esquema de poder para o qual o seu apoio é “politicamente alugado” – isso explica, por exemplo o seu voto “SIM” no impeachment de Dilma, apesar das famosas declarações de amor ao petismo vazadas em suas redes sociais meses antes de dar esse “SIM” no microfone da sessão que definiu a queda da Rainha da Mandioca.


Essa mesma postura que Faria teve com Dilma, de simular apoio e “na hora H” votar pela queda, ele está tendo agora com Bolsonaro e de maneira bem mais sofisticada, usando seus poderes de Ministro da Propaganda.


Como Ministro da Propaganda, o primeiro ato que Faria tomou foi promover a completa destruição das divergências de Bolsonaro com a grande imprensa.


Bolsonaro, como qualquer imbecil sabe, foi eleito com a força das redes sociais e com um discurso fortíssimo de combate às narrativas da grande impresa. Notabilizou, na campanha, embates memoráveis dentro da Rede Globo de Televisão, da TV Cultura e em confrontos diretos contra jornais como a Folha, Estadão, O Globo e as revistas Veja e IstoÉ, sem contar ainda as divergências que abriu contra as rádios Jovem Pan, CBN e Band.


Sim, foi exatamente isso que elegeu Bolsonaro e era exatamente esse confronto com as mentiras proferidas pela grande imprensa que mantinha a popularidade de Bolsonaro em alta inquestionável, e contrariando pesquisas.


Eis que Faria muda completamente essa estratégia e com o surgimento da CNN Brasil, promove uma reaproximação de Bolsonaro com toda a grande imprensa.


A grande imprensa não apenas não parou de atacá-lo, como intensificou esses ataques e começou, ao longo do ano de 2020, a fechar o cerco sobre o seu governo. Episódios no Ministério da Saúde foram todos precipitados pela grande imprensa, que levou Bolsonaro a promover demissões em série até a efetivação do General Pazzuello na função. Essa mesma imprensa, em conluio com o STF, conseguiu vitórias importantes no MEC e na Casa Civil.


Em contrapartida, Faria mostrava para Bolsonaro índices de popularidade medidos por institutos que sempre foram alvo de duro questionamento por parte dele, Bolsonaro, e com uma agravante: as pesquisas de rua e que tinham certos critérios de recorte no espaço amostral, tiveram, por conta da pandemia, que flexibilizar esses critérios estatísticos e buscar resultados por meio de entrevistas telefônicas sabe-se lá com quem, morando onde, e em que condições, deturpando assim a precisão dos dados coletados.


Não digo aqui que os resultados de aumento da popularidade de Bolsonaro foram forjados, assim como nunca disse que os dados anteriores que se mostraram falsos também o eram antes – apenas questiono os critérios de pesquisa para quem só quer saber de resultados.


Note, portanto, que esse primeiro passo dado por Faria enfraqueceu a maior coluna de sustentação do governo Bolsonaro e de sua consistência política, a saber, o seu enfrentamento ao péssimo trabalho da mídia mainstream, integralmente comprometida com governos anteriores, suas políticas e consequentemente suas ideologias nefastas.


A partir disso, a imprensa combalente ganhou força de novo e ressurgiu com Fênix, sangrando Bolsonaro novamente, a cada dia. Este, por sua vez, seguia a orientação do seu Ministro da Propaganda e abaixava a cabeça para a essa imprensa, virando as costas para a independente.


Sem essa peça e agindo assim, Bolsonaro perdeu toda a sua estamina ali, por força dessa imperceptível mudança (para muitos) da orientação que vinha do novo Ministro.


Muitos conservadores aceitaram esse jogo e foram “babar ovo” na CNN, na Band (controlada pela China...) e em canais que estavam ostensivamente trabalhando para a destruição do Bolsonarismo e, obviamente, do conservadorismo como um todo.


Quando alertei sobre o erro, fui “cancelado” por parte dessa direita festiva e improdutiva, que hoje sobrevive do indigno ofício do passapanismo.


Se a Ópera de Faria fez Abertura e Primeiro Ato nessa pantomima de “pazes com a imprensa”, deixando o Segundo Ato para montar um falso apoio (militância “Olhos Verdes”) e uma falsa sensação de popularidade (pesquisas questionáveis), o Terceiro Ato, que começou hoje, lança ao palco o principal veneno para o qual Bolsonaro não possui antídoto: China.


O canal da Shock Wave no Telegram tem todos os detalhes do que trato a partir de então neste artigo: vacina e 5G.


Em relação à Vacina, Faria solta hoje uma peça publicitária pró-governo, que incorpora todos os argumentos de marketing repisados pelo governo Dória e pela sua equipe.


A completa guinada do governo em relação não só à obrigatoriedade da vacina para todos, como as suas qualidades, mostra uma derrota sensível sofrida pelo governo, com consequências políticas bastante desastrosas que estão sendo omitidas pela militância virtual e seus “mensaleiros de twitter”, com o fim de manter Bolsonaro na ilusão de que está com respaldo popular em suas idas e vindas.


As idas e vindas em outros assuntos foram até esquecidas e são até perdoáveis, mas esse recuo em relação ao tema da vacina de origem chinesa, tendo que não só ceder para a ideia de vacina, mas sobretudo para aquela vacina específica, é custo que Jair não tem capital político suficiente para pagar.


Para piorar, tentando fugir do laboratório chinês, o governo já teria tentado investir em outro laboratório (Johnson, segundo fontes), mas caiu no mesmo problema, pois a Johnson depende, para a fabricação da sua vacina, dos insumos chineses. To make a long story short, o Brasil está na total dependência de insumos chineses para qualquer vacina que queira comprar ou fabricar e não espanta perceber que só a China detém (direta ou indiretamente) os tais insumos de uma pandemia que teve origem na própria China.


E é pelas mãos de Fábio Faria, filiado ao PSD de Kassab, aliado fiel de Serra do PSDB, que é do mesmo partido do Ministro Marinho, outro aliado de Faria, que a queda de Bolsonaro está sendo acionada mediante a estratégia de capitulação para a China.


Ao aceitar a integral dependência política do laboratório chinês, Bolsonaro ruma, no Terceiro Ato, para a sua capitulação final de uma Ópera que começou bufa e terminará como tragédia.


Mordendo a isca de Dória para evitar que a sua derrota política não seja de goleada, Bolsonaro tentou “bater a carteira” do governador puxando para si a liderança no processo de elaboração da vacina, agora de origem inquestionavelmente chinesa. O lado ruim é o “batom na cueca”: qualquer ação em torno da vacina que Bolsonaro tome (tanto a ação, quanto a vacina), irá beneficiar Dória, pioneiro no tema no qual Bolsonaro travou até agora o seu maior e mais visceral debate político: e perdeu.


E chinês, como não dá ponto sem nó, já submeteu o Brasil a suave boicote de insumos que serão superados caso o Brasil ceda em relação aos vetos que apresentou no tema da tecnologia 5G, em que a Huawei surgia sempre como empresa vetada. A China soube perfeitamente criar uma alavancagem que não tinha, diante dos olhos míopes de Bolsonaro e seu entorno inexperiente e ineficaz.


O trade-off é claro: China libera insumos se o Brasil liberar o 5G para a Huawei.


Quem foi nomeado para cuidar desse assunto?


Se você apostou em Fábio Faria, acertou danado, danada!


Fábio Faria está encarregado de fazer andar esse processo e já prometeu dar atenção especial a Huawei. O tema ainda foi parar no TCU, onde foi formado um grupo de trabalho para tratar do tema em regime de prioridade absoluta: nem mesmo nossa crise fiscal e o estado de calamidade total das contas brasileiras vai deter a dupla Faria/Huawei. E quem vai dar uma força extra nesse caso? Sim, ele, o ex-Assessor do PR, Jorge Oliveira, agora Ministro no TCU, mas sem integrar ostensivamente o GT, para “não dar muito na cara”.


A turma do “deixa disso” e do “não sou esquerda nem direita” tomou conta do processo e vai entregar o Brasil em troca de uma vacina e de uma tecnologia 5G.


Faria, Dória, Jorge, Antagonistas, Globo: todos vão operando em uníssino nessa estratégia. Para piorar, foi chamado as pressas um elemento importante nessa equação e que, como dizem, tem enorme poder para superar as animosidades que foram criadas desde o episódio do Embaixador com o Deputado Eduardo – o Vice-Presidente Hamilton Mourão.


Caberá a Mourão conduzir esse processo dessa verdadeira bomba-relógio armada por Fábio Faria: se Mourão obtiver sucesso (o que muito provavelmente acontecerá nos próximos meses), nenhuma eleição para presidência do Congresso há de salvar Bolsonaro – ele será responsabilizado pelos resultados negativos d’antanho e Mourão, o sucessor, lucrará com os ganhos.


O ex-militar, que conta com o apoio maciço da militância virtual criada e apoiada por Faria e filiado ao partido de Levy Fidelix, partido que, diga-se de passagem, deu casa aos bolsonaristas depois que Bolsonaro resolveu sair do PSL sem deixar bilhete, não terá dificuldades de fazer um mandato-tampão em um modelo “Temer fardado”.


Bolsonaro hoje está sozinho. Não conta com nenhum aliado verdadeiro ao seu lado e paga o preço de suas escolhas políticas. Entrará para a história como a “Dilma da direita” e o jogo de 2022 será aberto no mesmo dia da posse de Mourão, que há de ser dada por um Ministro do STF/TSE, que, por ironia do destino pode até ser Kassio Nunes.


A conferir. O roteiro está pronto e os atores estão a postos e o diretor, Xi Jinping, já gritou de longe “Ação!”.




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