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O teatro dialético

Por Junior Velozo



A política é uma arte da escuridão e, como tal, seus praticantes são especialistas em ocultar seus reais interesses. Por isto o Professor Olavo de Carvalho insiste em lecionar sobre a Dialética do Discurso, que consiste em encontrar o caminho entre as ideias do orador.


Enfrentamos especialistas na arte de maquiar as verdadeiras intenções. Ardilosos e manipuladores, passam quase imperceptíveis pelas fileiras adversárias, no caso, a recém-nascida e desorganizada turba autointitulada "Direita Conservadora".


Estamos familiarizados com os termos "teatro das tesouras" e "desinformação", que são repetidos como mantras em reuniões e núcleos da nova direita e utilizados aos montes para sustentar discursos pomposos de autoridades emergentes — a bendita Dialética. E como são enfadonhos, quando repetidos sem sentido e sem a carga didática necessária para ensinar os adeptos a encontrar o caminho entre as ideias e ações do adversário.


Recentemente, acompanhamos o julgamento na Corte Suprema, no qual o recém-promovido ministro do STF, Nunes Marques, concedeu às vésperas da Páscoa — o principal feriado religioso do Cristianismo — uma liminar em uma ação da Associação Nacional dos Juristas Evangélicos (Anajure). E veja bem: para permitir que a imensa maioria de cristãos do Brasil pudesse celebrar seu feriado, outrora garantido por cláusula pétrea constitucional desde, esta que vive em suspeição em tempos de pandemia.


A decisão foi acompanhada pelo Procurador Geral da República, Augusto Aras, e apoiada incondicionalmente com acalorada sustentação oral do novo-velho Advogado Geral da União, André Mendonça, o personagem principal dessa reflexão, motivo dos títulos clickbaits e que recebeu atenção especial da mídia. Os dois são candidatos ao cargo de “ministro terrivelmente cristão”, escolha que acontecerá após a aposentadoria do ministro Marco Aurélio Mello.


Enfim, todos com a mínima carga horária de estudos básicos entenderam o teatro com vários participantes supremos e que tem como objetivo manter a escolha entre seus atores.


"Mas, quando passa pelas simplificações requeridas para se adaptar ao QI dos militantes, a dialética de Hegel volta a mostrar aquilo que era no fundo: a arte de proferir enormidades com uma expressão de fulgurante inteligência. Daí derivam algumas artes secundárias: a de cometer crimes para fomentar a justiça, a de construir prisões e campos de concentração para instaurar a liberdade, a de condenar o terrorismo dando-lhe prêmios etc., etc. Só um profano vê aí contradições insanáveis. Para o dialético, tudo se converte no seu contrário e, quando isso acontece, fica provado que o contrário era a mesma coisa. Quando não acontece, ele faz uma forcinha para que aconteça, e em seguida arranja uma explicação dialética absolutamente formidável."

- Trecho do texto "Dialética Formidável" do professor e filósofo Olavo de Carvalho (O Globo, 27 de março de 2004).