• Evandro Pontes

O Totalitarismo e o Amor no Estado



Em meu último artigo em resposta a Doutora Bráulia sobre a confusa argumentação de "porque o Brasil precisa de Damares", creio ter provado o inverso (o que, convenhamos, não estava tão difícil dado o esforço empenhado no BSM em cometer um brutal suicídio lógico).


Ao longo do O Brasil Não Precisa de Damares uma importante redpill foi jogada, mas confesso, hesitei em trabalhá-la mais profundamente.


E por uma razão simples e prática: ali a ideia era refutar uma argumentação e não criar outra em cima, expandindo, de certa forma, um debate que estrategicamente deveria ficar circunscrito a uma questão prática e de realpolitik.


Refiro-me a este trecho: "Essa perigosa linha do 'Deus é Amor' transformada em 'Estado é Amor' foi justamente o que alçou o PT ao governo e abriu caminho para o Foro de SP destruir o Brasil que você diz precisar de gente como Damares, que repete a mesma estratégia de 'Estado é Amor'. O neofascismo petista é ao menos 50% baseado no lero-lero do 'Estado é Amor'."


Essa redpill é pesada e, creio, faço aqui o momento adequado de abordá-la, com você leitor e leitora, após a poeira do Ministério já ter baixado um pouco. As pessoas não tem noção do quão nociva e perigosa é a ideia de "Estado é Amor" ou de políticas públicas baseadas no "Amor" (sobretudo as que levam o nome de Deus entre as desculpas dadas para se invadir uma esfera privada).


Esse tipo de retórica é o maior caminho para a servidão.


Sim: a servidão, a sevícia, o abuso e a escravidão são inviáveis sem esse "Amor", que de bíblico não tem absolutamente nada.


Em conversa de bastidores com dileta amiga e não especificamente sobre esse tema da Ministra Damares, mas também sobre a postura de vários empresários diante do estado totalitário para o qual caminhamos, falávamos sobre o 1984 de Orwell.


Em Orwell a mensagem é clara: "ninguém se sujeita apenas por medo ou sofrimento ao seu opressor. A sujeição total depende do amor. O escravo deve amar o seu senhor para que a servidão total se estabeleça", lembrou-me a amiga.


É exatamente o que ocorre hoje na China nessa era pós Massacre da Praça da Paz Celestial. Os chineses não mais temem a ditadura de um partido único, mas praticamente amam seu líder, como amavam a Mao; amando assim, com orgulho, toda essa estrutura e aparato, com algum tempero de "amor ao dinheiro". O resultado? Uma ditadura movida pela corrupção, pelo guanxi, pelas tradições mais sórdidas de meios que facilitam um fim que sai do público e termina no Estado.


Facínoras como Lula sabem disso. Após a fase de breve terror, impondo o medo, as pessoas precisam amar o seu opressor e admirá-lo ao ponto do orgulho. Precisam chegar ao ponto de comemorar os seus gols.


Por que cargas d´água a religião LGBT insiste tanto no amor e no orgulho? O amor de um pederasta equipara-se ao Amor Divino? Não precisa ser sequer alfabetizado ou homossexual para responder não.


A diferença básica de um Amor, o Divino, para o outro amor, o homossexual está no Caminho para a Liberdade. O Amor Divino liberta, o amor carnal aprisiona e impõe servidão.


Eu duvido que um membro da seita LGBT se sinta livre tendo que viver diuturnamente sob o mantra do "orgulho gay": acorda, passa o dia e vai dormir pensando em viadagem e como encaixar essa paranóia no catolicismo, nas universidades, na mídia, nos desenhos infantis, em tudo. Ele se serve disso e ao mesmo tempo serve para isso. É praticamente o grau mais baixo e profundo na escala da tristeza e do oposto do verdadeiro orgulho - a vergonha [do latim vereccundia, ae, palavra de 1a declinação que significa modéstia, moderação, timidez que por sua vez leva à insegurança e à autocomiseração].


É livre uma pessoa que vive uma causa de forma absoluta e total?


A ideia, em forma de "dica", de que não há totalitarismo sem amor, foi portanto lançada por Orwell no 1984.


Quem leu, vai me entender melhor.


Portanto, quando eu leio coisas como "Deus é Amor" para distorcer retoricamente políticas públicas (coisa que a turma do "Porta dos Fundos" faz todo ano com seus repulsivos "especiais de Natal") eu lembro de Orwell.


Para quem não leu, vou trazer a citação para não deixar dúvidas: "You must love Big Brother. It is not enough to obey him: you must love him." [Você deve amar o Grande Irmão. Não é suficiente que você o obedeça: você tem de amá-lo].


A situação se torna mais perniciosa, sórdida e herética quando esse amor ao Grande Irmão se faz fundamentado falsamente nas Sagradas Escrituras.


Quando o espaço da polis é redesenhado em um simulacro de palco de amor divino, o totalitarismo é facilitado ao ponto da persuasão não racional e pseudo-teológica: como o maldoso político sabe que ninguém lê a Bíblia e quando o faz, não tem ao seu lado um bom sacerdote para instruí-lo na Palavra, a astúcia invade a Fé e traz o pobre (de espírito) para o Caminho da Servidão.


E por isso tanto Hayek quanto Voegelin se tornam fundamentais para entender isso tudo, mas ainda aquém da Bíblia. No detalhe de Hayek (que venceu o Prêmio Nobel de Economia por essa tese em 1974), a resposta dada pelo socialista Polanyi remete novamente ao meu texto anterior: ao refutar o que Hayek chamou de Caminho da Servidão, Polanyi lança o seu A Grande Transformação. Notem como Servidão e Transformação, na linguagem dos comunistas, são truques que sempre andam juntos.


Esta redpill, me desculpem, não caberia lá e mereceu este texto separado.


Eu poderia me estender por muito mais linhas para dizer o que é esse Amor, sobretudo o bíblico, onde não há especificamente uma demanda do mortal pelo amor de Deus, mas sim o inverso - a exigência é sempre do seu Amor para Deus, para que você não invista esse sentimento em outro mortal que irá, mais cedo ou mais tarde, seviciá-lo.


O dever de Amar é seu e perante Deus, e não Dele perante seus erros; pois Deus também pode ser fúria e castigo.


O caminho para a Liberdade, e isso nos ensina a Bíblia, é Amar a Deus e a mais ninguém e mais nada, como bem provou o patriarca Abrãao. Exigir que Ele me ame ou que eu ame outro que não Ele como forma de libertação, é heresia; é abrir uma estrada curta para a servidão. Praticamente, uma transformação rumo à servidão.

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