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O truque mais velho do Diabo

Por Victor Domingues e Thiago Pacheco



De tempos em tempos, aparece na cultura pop ocidental algum esforço conjugado para normalização de práticas satânicas. A relativização demoníaca da vez ficou por conta do jornalista Ivan Mizanzuck, professor universitário que ganhou fama explorando no formato podcast o caso do sacrifício do menino Evandro e as Bruxas de Guaratuba, posteriormente adaptado para a televisão em série exibida pelo canal de streaming Globoplay, em maio de 2021.


A confusão mental do professor Mizanzuck não é despropositada. Sua tentativa de equiparar o cristianismo ao satanismo faz parte de um pacote moderno de aprisionamento da mente e escravização espiritual cada vez menos oculta. A normalização das práticas de encantamento e sacrifício animal já foi declarada constitucional pelo mais alto tribunal do país, o STF. O mesmo tribunal cujo membros buscam orientação espiritual com gurus como João de Deus.


A manifestação de Mizanzuck hoje no Twitter é a tentativa de corrigir um rumo involuntário que tomou os 36 longos episódios do podcast do “Caso Evandro”.


A reprodução do caso serviu para que o Brasil inteiro revivesse o horror do enredo diabólico que a prática mística da magia negra e seus adeptos são capazes de realizar para alcançar seus objetivos.


Sob o pretexto de escancarar um caso de violência policial e críticas das instituições penais, Mizanzuck “atirou no que viu e acertou o que não viu”, e conseguiu expor o ambiente de sequestro, estrangulamento, antropomancia e evisceração de uma criança de 07 anos, praticados justamente pelo – ora, ora – satanismo.


Outras temáticas que circundam o “Caso Evandro” são acessórias perto da barbárie infernal realizada por bruxos e bruxas a poucos quilômetros da residência da família Caetano. O Brasil inteiro acompanhou o que são capazes de fazer pessoas sob influência maligna.


Na defesa aberta do satanismo faltou tudo ao jornalista. Senso das proporções, ajuste da bússola moral e, principalmente, conhecimento da história das religiões. Nem se diga que faltou ao professor Mizanzuck originalidade na defesa de Satanás e dos seus amigos “bruxos”. Toninho do Diabo pareceria mais autêntico.


Sim, existem muitos assassinos sedizentes “cristãos”. O que é diferente de admitir a papagaiada panfletária da “inquisição e suas milhares de mortes”. Entretanto, se cristãos violam o sexto mandamento da lei mosaica é pela falta, ou pecado, coisa que não faz sentido e está completamente fora de moda para os amigos do professor Mizanzuck e demais praticantes do satanismo.


Ainda que se pretenda enxergar a questão sob a perspectiva de “liberdade religiosa”, o satanismo é uma espécie de “materialismo espiritual” que prega, entre outras coisas, o que Raul Seixas – deslumbrado por Aleister Crowley e influenciado por Paulo Coelho – escreveu: “faz o que tu queres, pois é tudo da lei”.


É a mesma matriz ideológica da autoindulgência moderna, do discurso repetido à exaustão de “o que importa é viver o momento”, “o importante é ser feliz”, sentir prazer e nada mais. É uma espécie de negativo do que representa a cristandade – o amor ao próximo e a renúncia às paixões vulgares e materiais. No satanismo, é o contrário: o que importa é fazer o que dá na telha, satisfazer os instintos, por mais animalescos que sejam, como o ironicamente batizado “Lázaro” têm demonstrado no sertão

do Goiás, matando inocentes com uma voracidade assustadora.


“Nas redes sociais, internautas pedem que as ações do criminoso não sejam atribuídas a

determinadas crenças, sem qualquer relação com assassinatos e estupros, para não disseminar desinformação. Outros, entretanto, admitem que acreditam em acontecimentos sobrenaturais neste caso”.


A rapidez com que se defende praticantes de satanismo de “desinformação” – mesmo que haja perfeita harmonia entre os postulados espirituais que seguem e suas práticas – é parte de um esforço que passa por adolescentes desmiolados na internet que não conseguiram superar o impacto de assistir “Supernatural” sem o Nescau da mamãe; a imprensa, a cuidar para que não haja “polêmicas” nem “desinformação”; a cultura popular, com “heróis” como o já mencionado Crowley, Paulo Coelho e outros estrupícios; enfim: parecemos estar cercados, o tempo todo, por pessoas capazes de relativizar e normalizar a evisceração de crianças em troca de um carro novo, ou “sucesso” profissional, e rituais para fazer mal a semelhantes, da mesma maneira que, há pouco tempo, passou-se a relativizar também a pedofilia, aos poucos tratada como “uma orientação sexual como qualquer outra”.


Não é por acaso que as presas de satanistas e pedófilos são sempre as mais indefesas – e se isso o torna “uma religião como qualquer outra”, é de se perguntar: o que vai pela cabeça de alguém capaz de afirmar isso publicamente?