slider-1.png
  • Shock Wave News

Os “Bolso-kachigumis”

Atualizado: Set 13

Por Evandro Pontes

Presidente Jair Bolsonaro discursou nas manifestações em seu apoio na Esplanada dos Ministérios e na Avenida Paulista, em São Paulo Fonte: Agência Senado


Quando o Japão foi derrotado na II Guerra Mundial depois de duas bombas atômicas que reduziram Hiroshima e Nagasaki a pó, uma parcela de fieis seguidores do Imperador passou a espalhar a notícia de que o Japão havia vencido a guerra.


Eram os kachigumis, ou “aqueles que acreditavam na vitória”. Em alguns lugares, eram chamados de shinen-ha ou “fieis”.


Com base em absolutamente nada e em diversionismo puro, liam o discurso de rendição do Imperador Hirohito como se fosse uma declaração de vitória sobre os “yankees”: viam nas palavras de derrota uma vitória inexistente. Interpretavam a foto em que o Imperador aparece ao lado do General MacArthur como “prova” da vitória e da rendição do General americano e não como prova da rendição do Imperador.


A guerra tinha acabado para a totalidade dos japoneses, que, em sua maioria conformados, voltaram à sua rotina para trabalhar e se adaptar às consequências da guerra. A esses que queriam voltar a sua rotina e trabalhar normalmente, pelos kachigumis, foi dado o nome de makegumis, ou “derrotistas”.


No Brasil, acrescentaram a esses derrotistas a alcunha de “corações sujos”.


O evento, relatado em livro bem ruim de Fernando Morais, virou filme (igualmente ruim).


Na tensão entre “fieis” e “derrotistas”, um grupo organizado pelos fieis, surgiu logo após a guerra com o fim de cancelar e acossar aqueles que não acreditavam na “vitória do Japão na II Guerra Mundial”. Logo tornou-se um grupo terrorista local no interior de São Paulo, na região de Bastos e Tupã: a Shindo Renmei.


Esse grupo começou a elaborar listas de gente que deveria ser executada e morta por “trair o Imperador”. Note-se que a ação dos Shindo Renmei nada tem a ver com o Imperador – é fenômeno que nunca foi seriamente estudado, nem mesmo por Morais, o único a se debruçar sobre o tema.


Um dos problemas, inclusive, da pesquisa de Morais que não é devidamente explorada no livro mas relatada em vídeos como este, com depoimentos de Goro Abe Sama e de Uichiro Umakakeba Sensei foca-se na questão do estelionato que se seguia ao engano. Nesse vídeo, exatamente no minuto 5:00, Goro Abe Sama mostra como o movimento dos kachigumi não era apenas “político”, “ideológico” ou algo ligado a “fanatismo” – havia também um fundo financeiro.


“Muitos aproveitaram para ganhar dinheiro”, declara Abe Sama.


Estimulando incautos a acreditar na vitória do Japão, kachigumis compravam terras e pontos de comércio a preços ridículos estimulando aqueles “nipo-boomers” a voltar para o Japão. Convenciam que a vitória na II Guerra Mundial teria transformado o Japão num oásis e que como a condição financeira no Brasil em 1945 estava terrível, os fieis poderiam apostar tudo o que tinham e abandonar tudo aqui para voltar para o Japão, sem saber que lá a terra estava literalmente entre escombros.


Sendo direto, o estelionato comeu solto e muita, muita, muita gente foi enganada e uma parcela pequena ficou muito, muito, muito rica.


Por conhecer há décadas gente da colônia japonesa, já tive a oportunidade de tratar sobre esse assunto delicado com os mais velhos. No vídeo, Goro Abe Sama lembra que “nem todos” se aproveitaram da situação para aplicar golpes em “fieis”.


Pois é...


Do que pude ouvir com meus senseis, o grosso desses exploradores estava com infiltrados. Havia alguns integrantes da colônia japonesa que se beneficiaram do estelionato, mas a maioria (e em especial os seus “organizadores”) eram brasileiros locais que, se aproveitando da briga interna na colônia, souberam dar aos “fieis” uma alternativa “ótima”, ajudando-os com as despesas de retorno em troca de todas as terras e fortuna que haviam amealhado por aqui.


O segredo para se entender uma das causas gerais do estelionato embutido nas mentiras e nas caçadas da Shindo Renmei está em se estudar o elemento dos infiltrados.


Esses infiltrados entenderam, de fora, a crença daqueles que achavam que ser fiel ao Imperador era mais importante do que ser fiel aos ensinamentos de Buda ou de Cristo (para os que haviam se convertido ao catolicismo logo após a chegada ao Brasil), e tomaram dessa fidelidade uma bela fonte de renda.


Isso está acontecendo no Brasil exatamente neste instante.


Veja a mensagem que recebi em privado de um amigo, que vou preservar sua identidade: “Já há algum tempo a base vive em estado de negação da realidade. Bolsonarista não consegue dizer uma palavra sobre os problemas reais do país (inflação, empregos, etc.) de modo propositivo. A base acredita piamente que JB vai ser reeleito facilmente, que tem aprovação popular, que é de fato um estrategista, etc. E quando se faz um chamamento à realidade, como tento fazer, a hostilidade é total e completa”.


E não raro, essa hostilidade parte de uma horda de infiltrados trazida em 2020 pelo Ministro Fábio Faria, com a exata estratégia de “defender o presidente a qualquer custo”.


Em meio a esse bolo de perseguidores, há gente ganhando muito, muito, muito dinheiro por meio de Pix e assinaturas, superchats e outras formas de monetização que não foram atingidas pelas medidas ilegais do STF.


Eu particularmente, não acho que se deva tirar os meios de monetização onde há gente querendo pagar para ser enganada – de meu lado, sigo o lema: “passarinho que come pedra, sabe o cu que tem”. E aí não cabe ao estado promover ações para “costurar cu de passarinho”.


No mais, apenas observo gente querendo colar a narrativa de que o discurso de rendição escrito a quatro mãos por Temer e Alexandre de Moraes é um “discurso de vitória” ou que agora “o STF vai soltar todo mundo”.


Essa postura “bolso-kachigumi” vai além – faz também lista de “traidores” para persegui-los e aporrinhá-los.


Para a sorte dos atuais makegumis, a Shindo Renmei bolsonarista, aplacada por uma bomba atômica soltada pelas costuras de Arthur Lira e Ciro Nogueira com Gilmar Mendes, é diferente dos kachigumis dos anos 1940 – quem sabe lutar de verdade, hoje, são os makegumis e a esses kachigumis sobrou apenas o estelionato.


Esses kachigumis não passam de um bando de estelionatários sem qualquer recurso físico ou mental, em busca meramente de recursos financeiros alheios para cobrir os rombos de suas cagadas financeiras.


São, como diria Santo Ambrósio, lisonjeadores (adulantes, em latim).


E sobre os adulantes, dizia, prospiciendum etiam ne adulantibus aperiamus aurem; emolliri enim adulatione, non solum fortitudinis non esse, sed etiam ignaviæ videtur, qual seja, “cuidemos para não dar muita bola para aduladores; pois, proteger-se na lisonja não apenas não é coragem, mas é visto como também uma forma de covardia” [nota: inação, do latim ignavia].


Desde o início advertia: há duas coisas que podem arrasar o bolsonarismo – a covardia e os infiltrados (sobretudo liberais e neocons). Como mostra Santo Ambrósio, uma coisa está ligada a outra.


Mas eu jamais imaginei que mentir copiosamente ia fazer de meia dúzia de boomers uma Shindo Renmei fora do tempo.