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Plaudite amici, comedia finita est!

Por Evandro Pontes


Imagem: Reprodução

A frase consta do libreto da Opera I Pagliacci, de Ruggero Leoncavallo, em sua versão italiana (“La commedia è finita!”), mas notabilizou-se, na sua versão latina, como últimas palavras de Ludwig van Beethoven em seu leito de morte.


A sentença, na realidade, é uma fórmula padrão que era usada em peças do teatro latino e popularizou-se na Commedia de l’arte medieval. Indicava, aos mais entusiasmados que ainda estavam rindo aos borbotões dentro da arena, para recolher as coisas e ir embora para casa, enfrentar a realidade e pagar seus boletos.


O circunspecto compositor alemão teve a destreza, ao final de sua vida, de deixar o recado aos que o cercavam no leito de morte para “não levá-lo tão a sério” – e é justamente por isso que Beethoven é... levado tão a sério. São incríveis os caminhos da arte e a linguagem dos gênios. Só se comparam, em agudeza, à linguagem dos parvos. Falemos deles e voltemos à fórmula da comedia finita est.


Na arte contemporânea, essa fórmula é usada em um clássico dos anos 80: Ferris Bueller’s Day Off – depois de aprontar em 1 hora e meia de película e a íntegra dos letreiros ter passado pela tela, a personagem principal, Ferris Bueller, interpretado por Matthew Broderick no único papel relevante de sua vida, volta a tela e diz: “You still here? It’s over, go home. Go!”.


Ao fim da tarde de ontem, na abertura do bicentenário da Independência do Brasil, as ruas abarrotadas de gente deram palco a hordas que tomaram seus rumos para os respectivos lares, com aquele riso bazófio na cara reluzindo o amarelo das camisetas.


Na mente, a sensação mais do que consolidada de plaudite amici, comedia finita est...


E é assim que termina, a partir de hoje, o governo Bolsonaro, uma verdadeira comédia de erros.


Erros que, conforme falei, tiveram início em um golpe de estado estampado em uma entrevista em pleno jornal O Estado de São Paulo em sua versão eletrônica, naqueles idos de maio de 2019 – ali um golpe de estado havia sido dado e simplesmente nenhuma providência foi tomada para reverter aquela situação.


As providências foram memes, piadas, lives, postagens, “tuitadas”, hashtags e toda a sorte de macaquices que transformava a vitória épica de 2018 em uma inquestionável comédia. Todos rimos muito, foi divertido, mas a conta do golpe de estado chegou hoje pela manhã na Praça dos Três Poderes.


A marca essencial de toda comédia está direcionada para a atuação de sua personagem central. A ela cabe representar uma farsa ou uma sátira. As mais reputadas peças cômicas conseguem consolidar em uma mesma persona satírica a dupla função de farsa e sátira.


E para isso, a personagem precisa ser interpretada de forma a decompor-se a si mesma em um processo, ao longo da peça, de autodestruição – essa ideia de autodestruição é (sempre ele) de Platão.


Assim, como técnica satírica e farsesca de interpretação, a mais usada é a do parvo, o clown por excelência da autodestruição. Jogar no palco um “jogo de parvo” é técnica simples, usual e eficiente – é o que fazem clássicos da interpretação farsesca dos tempos modernos: Stan Laurell, Oliver Hardy, Moe Howard, Curly Howard, Larry Fine, Louis de Funés, Graham Chapman, John Clease, Terry Gilliam, Eric Idle, Terry Jones, Michael Palin, Rowan Atkins e, no Brasil, o saudoso Fausto Fanti são exemplos de uso competente e preciso dessa técnica do “Jogo do Parvo”.


Na vida real, é o que na periferia se chama “meter o louco”.


A personagem “parece louca”, “ousada”, mas como a totalidade de suas “investidas” ficam restritas a bravatas e trapalhadas, a sua “loucura” é forma de esconder certa parvoíce.


No centro, então, dessa Comédia de l’Arte brasiliense, temos Jair Messias Bolsonaro, que interpretou-se a si mesmo, antes da medida final do “cai o pano”, na abertura do Bicentenário da Independência, longe de onde os fatos a serem comemorados de fato ocorreram.


No local dos fatos, onde compareci, vi apenas Dom Bertrand de Orleans e Bragança. Não comparecerem nem Prefeito, nem Governador, nem o Presidente da República. Não havia um vereador, um deputado estadual ou federal, um senador, um ministro, um militar – nada. As margens do Rio Ipiranga, ontem, estavam mais despovoadas do que há 199 anos atrás. Todos estavam de olho na “Paulista” e na “Esplanada dos Ministérios”, lugares completamente avessos ao espírito do Ipiranga.


E Bolsonaro transformou o 7 de setembro, que deveria ser usada para honrar a memória de Dom Pedro I, em data para transformar um desqualificado em “herói da democracia”, assim nomeado pelos jornais que, felizes, não só conseguiram tirar Dom Pedro I da data memorável, mas em lugar dele, por um mequetrefe como Alexandre de Moraes.


Mas os ditos jornais só conseguiram operar essa substituição porque Bolsonaro deu-lhes o material para a cirurgia histórica, em ato que confirma que no Planalto elegemos, infelizmente, um parvo.


Quando o golpe de estado foi anunciado e no dia seguinte o anúncio foi censurado sponte propria pelo jornal em questão, os atos da tragédia (de um lado) foram tomando corpo e os passos para a consolidação de um estado tirânico e policialesco evoluíram como nunca. Combatíamos e estamos ainda combatendo uma tirania cruel e perigosa com um exército de tontos e despreparados.


A pandemia não apenas encobriu a aceleração desse golpe de estado, dando ao tirano um ar de democrata, mas forçou o épico presidente para fugir de qualquer risco de auto sacrifício, ato que retira o herói da epopeia e o lança para a elegia e, ato contínuo, pelo jambo, o apascenta na comédia, com escapadas para alguma lírica bucólica de pescaria ou de motociata.


Um golpe de estado duro, antidemocrático e basicamente escorado na mentira – exatamente aquilo que Santo Agostinho, em De Mendacio, lembrou: culpa vero mentientis est, in enuntiando animo suo fallendi cupiditas; sive fallat cum ei creditur falsum enuntianti; a saber, a culpa do mentiroso está, verdadeiramente, naquele enunciar de sua alma, carregado de desejo de enganar, pois logra o engano pelo autocrédito conferido ao próprio falso enunciado. Não consegui descrição melhor que essa para os atos praticados por Alexandre de Moraes, em conluio com a imprensa que reforça seus falsos enunciados jurídicos, indo d’O Antagonista (o pior de todos) à Folha, passando pelo próprio OESP, além de outros veículos liberais como Veja, IstoÉ e Globo.


E como Bolsonaro e sua trupe de estúpidos parlamentares se organizavam para combater prisões, aleijões e persecuções políticas? Com memes, com hashtags, com motociatas e com muita, muita, muita bravata.


Note que o golpe de estado em questão não é urdido pela esquerda: a força de uma Carta Capital ou de um DCM com suas mentirinhas de bar não se compara ao Mendacio de um Mainardi, que decantou a existência de “atos golpistas” na véspera do 7 de setembro, transformando em “fracasso” a inexistência de qualquer golpe verdadeiro. Essa maracutaia retórica, hoje, celebra o último ato da Comédia Bolsonarista com roteiros de impeachment escorados na última fala (correta, ao meu ver) do presidente, durante os atos eleitoreiros e distantes das lições de Dom Pedro I: que as ordens ilegais de Moraes não podem ser cumpridas. E esse roteiro não é algo montado por socialistas ou simpatizantes de Maduro ou da China – é um roteiro integralmente montado por liberais que ocupam os três poderes e em sua maioria, com ligações estreitas com o PSDB e com o movimento doriano paulista.


Esse aviso foi por mim dado pessoalmente a quem ocorria recebe-lo ao longo dos anos de 2019 e 2020 – a opção em fazer “aliança” com quem hoje lhe morde a mão e gira a faca no bucho foi integralmente de quem usa, hoje, o “Jogo do Parvo” para se salvar.


Parar caminhoneiros não vai adiantar. Isso não vai interromper golpe algum: pelo contrário, não só vai acelerá-lo como dará à turma do Great Reset para promover as “reformas” que precisarem para não depender mais de quem os pressiona com baixa eficácia. O que era para ser “a nossa independência”, há de ser a “deles”.


E o aspecto farsesco, conteúdo, está no sermo, coisa típica das comédias e não no ato, algo típico das épicas.


O Presidente fala demais e não age – espera sempre que os outros ajam por ele, quando na realidade, ele é que foi eleito para agir por todos; e assim, faz de sua história no Planalto verdadeira comédia com esse “Jogo de Parvo”.


E ontem, a comédia celebrou seu último ato diante dos verdadeiros golpistas – um acelerado plano para apeá-lo do poder, sem que o presidente tenha feito literalmente nada, vai ser posto em prática para mostrar, como lembrou Ferris Bueller – it’s over.


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