• Alexandre Nagado

Podres de Mimados - Os males do sentimentalismo tóxico, segundo Theodore Dalrymple


Não são poucas as pessoas de espírito crítico que afirmam estarmos vivendo uma era dominada por gente mimada e por doses cada vez maiores de vitimismo. Tudo isso, ao que parece, tem uma origem bastante clara. Para o escritor britânico Theodore Dalrymple, o culto ao sentimentalismo vem estragando geração após geração, criando leis, necessidades e espetáculos deprimentes. Uma geração de pessoas frágeis em busca de proteção, aceitação e privilégios.


Em seu livro Podres de Mimados, Dalrymple apresenta ao leitor várias situações que considera frutos do que ele chama de sentimentalismo tóxico. Esse verdadeiro fenômeno social, explica ele, começou a se desenhar logo no começo do século XX, com motivações nobres, mas logo desandou. Teorias pedagógicas equivocadas que se espalharam pelo mundo visando proteger a auto-estima das crianças foram se acumulando em teorias pedagógicas baseadas em sentimentalismo.


Segundo Dalrymple, já em 1913, o autor Cecil Grant dizia que nenhuma criança deveria ouvir que sua letra está feia, sob o risco de não se desenvolver bem. Um relatório educacional inglês de 1937 chegava à conclusão de que uma criança iria aprender a escrever melhor se descobrisse os mecanismos da escrita sozinho, por dedução, do que simplesmente aprender esses princípios por meio de um professor ou de um livro. Levadas ao exagero, essas ideias ajudaram a criar teorias que devastaram a qualidade do ensino ao criar superproteção.


Theodore Dalrymple vai fundo nas raízes de conceitos sentimentais sem qualquer racionalidade, mas que se tornaram pedras fundamentais na pedagogia de inúmeras escolas de pensamento, do sócio-construtivismo à pedagogia de Paulo Freire. Tudo parece encontrar eco no conceito do "bom selvagem" de Rousseau.


Na área jurídica, ele explica a aberração que é a Declaração de Impacto Familiar que existe na Inglaterra. Trata-se de um recurso jurídico que dá espaço em um julgamento para um parente ou pessoa próxima de alguém que tenha sido assassinado. Quando chamada, essa pessoa deve ler para o júri uma carta onde expressa toda a dor causada pela morte de seu ente querido. No entanto, a função é somente catártica, pois é proibido ao juiz levar em conta qualquer informação dita lá. Não tem qualquer valor na pena dos criminosos, pois tudo já está decidido quando a declaração começa a ser lida, sendo apenas um espetáculo lacrimoso que dá a sensação de que a Justiça dá voz à família das vítimas.


Crimes são narrados e sua repercussão é analisada, demonstrando como a opinião pública se move pela emoção inconsequente. O fenômeno dos livros baseados em crimes reais também merece uma análise do autor, que identifica o sentimentalismo espalhado em muitas áreas da vida britânica.


Em outro capítulo, Dalrymple explica como, cada vez mais, demonstrar emoção em público passou a ser uma medida de valor e integridade moral. A cobrança feita à Rainha da Inglaterra para que se mostrasse emocionada no funeral da Princesa Diana foi somente um caso famoso de algo que se repete em todas as esferas sociais.

Trazendo isso para nossos dias, é fácil lembrar da quantidade de pessoas que se deixam filmar chorando, como se isso fosse lhe contar pontos sociais. Um simples vídeo de react a uma obra emocionante pode se tornar um show à parte, onde lágrimas são tesouros aos olhos do público. Indo para fora da sociedade britânica, o autor discorre sobre escravidão, racismo e pobreza, analisando ações políticas movidas a uma hipocrisia que se alimenta do sentimentalismo. As análises são precisas, abalizadas por muita pesquisa e conhecimento.


Pseudônimo do médico Anthony Daniels, Theodore Dalrymple enxerga a realidade como poucos. Tendo conhecido a miséria dos lugares onde trabalhou pelo mundo, ele oferece um diagnóstico preciso da origem de muitos males da sociedade moderna. Conservador, ele é um dos mais importantes ensaístas e críticos culturais de seu país, com desenvoltura para comentar em áreas diversas do conhecimento.


Em um mundo cada vez mais prejudicado por pessoas que trabalham o pior tipo de sentimentalismo, Theodore Dalrymple é leitura essencial para resgatar coisas perdidas, como o senso de realidade e o senso de proporções.



Título: Podres de Mimados – As consequências do sentimentalismo tóxico

Título original: Spoilt Rotten – The toxic cult of sentimentality (2011)


Autor: Theodore Dalrymple Prefácio: Luiz Felipe Pondé

Formato: 15,6 x 22,8 cm, com 208 páginas Editora: É Realizações (2015)

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