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Por que Atila ameaça a democracia?

Por Adão Boavontade


Muitos “cientistas” de hoje agem em negação do conhecimento, como detetives que queimam provas (estas, a favor de seus próprios clientes, para piorar). O conflito de hipóteses que sucede a observação da realidade parece, agora, ter sido substituído pelo estranho método da eliminação das hipóteses sem observação da realidade (ou com observação automaticamente desconsiderada).


Se antes concluíamos que de maçãs carregadas num galho havia uma macieira, hoje há quem queira nos ensinar outro processo de “produção de conhecimento”, um conhecimento não por assimilação de verdades, mas por contagem de votos e omissão de alternativas, argumentos, evidências e provas. As maçãs são retiradas dos galhos na base do facão: assim farão daquela árvore, se for necessário, uma laranjeira. É tudo o que nos pedem: “sejam bonzinhos, sejam razoáveis: o mundo em que vivemos exige que não cometamos mais o autoritarismo de insistir que macieiras sempre serão macieiras e não há o que ser feito para mudar o fato”.


Contudo, não é tão fácil nos convencer, dado que, no momento em que nos obrigam a viver nos “dias de hoje” (como se vivêssemos em outro tempo), surgem conhecedores da flora aos montes para questionar o descarte injustificável e fraudulento de maçãs no galho (as evidências maiores) e, ainda assim, avançar a discussão verdadeiramente científica, provando que, das folhas, raízes e outros aspectos aquela árvore cujos frutos foram omitidos, eliminados e até combatidos é, sem dúvidas, uma macieira. “Fiquem com as maçãs se as querem tanto, mas eis a verdade: esta árvore é uma macieira”. Assim, o indivíduo razoável que resta fica aliviado ao ver que não está só: que há especialistas, pesquisadores e cientistas justos para questionar e informar, jornalistas verdadeiros para divulgar e documentar.


Em seguida, os jornais classificam os novos questionamentos que aquecem o debate, por conhecedores e não apenas leigos, como “negacionismo”. Chamar a atenção para a omissão fanática de realidades é então considerado “anticientífico”, enquanto o absoluto desprezo pelas evidências de nexo entre causa e consequência, experimentado por inúmeras pessoas, é o novo método científico. A pretensa ciência funda-se em desprezar em vez de considerar, e não se contenta em tolerar os que preferem considerar em vez de desprezar.


Para os fins deste texto é emblemático o caso da aspirina: administrada por décadas sem que houvesse qualquer explicação científica para sua ação no corpo humano — além da constatação estatística de funcionamento prático, ou: “funciona mas não se sabe como” –, relembra-nos que um médico, enfermeiro, cientista ou mesmo paciente de verdade sabe reconhecer que o funcionamento de algo não está submetido à existência de explicação do funcionamento.


Se alguém contasse a Atila Iamarino, o guru da anticiência pandemônica, que o cérebro humano funciona desde antes de qualquer tentativa de explicá-lo ele não acreditaria, porque seus cacoetes só o permitiriam crer no contrário. Este nosso gracejo tem a finalidade de mostrar que Atila não vê a contradição entre não duvidar do uso prático do próprio cérebro enquanto exige demonstrações finais e eternas totalmente arbitrárias do funcionamento de outras coisas que, sim, funcionam. Cloroquina, ivermectina, zinco, vitamina D e outros só “funcionarão” depois que alguém os explicar, não basta a experiência de sucesso em uso clínico em larga escala, não. O farsante conclui, aliás, que o dinheiro público destinado à compra desses medicamentos salvadores não passa de desperdício que mata pessoas mal informadas, como se os médicos atuantes na linha de frente estivessem há meses praticando sem perceber o assassinato de milhares de pacientes. Só a bola de cristal do Atila permite ver o que os médicos assassinos não veem.


Os tratamentos, preventivo ou precoce, com o uso de medicamentos seguros, mesmo que não se explique ainda cientificamente seu funcionamento, equivale em ciência à própria experiência prática da existência e sintomas do vírus e suas consequências. Têm primazia a realidade sobre a explicação teórica. A falta de lógica do pressuposto de que é necessário antes entender e explicar para depois existir efeito é desmentida já pelos vírus: sem que alguém possa prever suas origens, sintomas, consequências etc., eles saem por aí infectando e matando pessoas despreocupadamente, sem avisar ninguém. Prova de nossa desgraça humana (e não só acadêmica) é constatar que é necessário enunciar isto a adultos e, ainda, notar que o que devia ser uma rápida assimilação de verdades transformou-se em um debate sangrento e brutal entre familiares, colegas de trabalho, namorados, médicos e tias da cantina. As tias da cantina, note-se, aliás, são hoje as mais rápidas para assimilar o óbvio, enquanto cientistas tentam bater recordes ao transpassar objetos tridimensionais em placas recortadas competindo com inteligentíssimos primatas. É pra esse tipo de debate científico que querem nos levar.

O farsante cientificista representa, portanto, vozes um tanto ocultas que tentam (i) escandalizar e amedrontar a população e (ii) convencê-la de que a realidade é que se submete à explicação, uma inversão diabólica.


De um lado, o medo (“milhões de mortos”, como anunciou Atila só para o Brasil, errando mais que as pesquisas eleitorais suspeitas) é reconhecidamente um meio de incutir a passividade geral, uma mansidão acompanhada pela abstenção do pensamento, da ponderação e do raciocínio, transferidos a alguma “autoridade” (especialistas, especialistas). Neste caso da epidemia do vírus chinês o especialista é próprio Atila, o produtor de… conteúdo nerd.


De outro lado, incutir a crença verdadeiramente sectária de que a realidade se submete à explicação leva à submissão dos acusados de ignorância aos explicadores. Estes tomam hoje para si a função sacerdotal (como analisa Flávio Morgenstern) de “contar a história” e distinguir verdade e mentira. Contudo, propõem um substituto mais pobre que o politeísmo da Antiguidade: da experiência aqueles derivavam deuses, mas não inventavam deuses para obrigar que os fiéis acreditassem em realidades para além de qualquer percepção, fundadas em nada mais seguro do que “é porque é” — paradoxalmente uma pobreza intelectual e uma capacidade divina, a depender do contexto. Deus é capaz da Revelação, mas tenho minhas dúvidas sobre Atila ser Deus — e, por precaução, deixarei a hipótese em aberto. Os antigos inventavam Poseidon para explicar as revoltas do mar, e assim propagavam sua fé, enquanto os contemporâneos inventam regras e absurdos para justificar a omissão da realidade e, ainda assim, exigem obrigatoriedade de fé.


Atila, como o destruidor das maçãs da árvore que ele não quer que seja macieira, como o odiento opositor dos curados pelos medicamentos que ele rejeita na exata medida em que como “grande cientista” não os compreende nem explica, provavelmente negaria minhas hipóteses e inferências acerca da fraqueza de seu raciocínio sub-mitológico versus a possibilidade de que ele seja o próprio Deus nos revelando tudo o que precisamos saber. Negaria minhas hipóteses para garantir, talvez com a ajuda de luminares do S** e combatentes munidos de fake news publicadas pelo jornalismo de prostíbulo, que autoritarismo é necessário e, sim, Atila é Deus. E que comecem os sacrifícios humanos. Se você não vê a incompatibilidade entre esses luminares e a tão aclamada democracia, provavelmente já lhe devoraram os olhos -- e não encerrarão aí.



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