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  • Dica HQ

PRÍNCIPE VALENTE, de Hal Foster

Acabei de ler mais um volume de Príncipe Valente da coleção publicada pela Planeta DeAgostini. E não me canso de me maravilhar com as histórias desse cavaleiro nos tempos do Rei Arthur.


O dito volume se refere ao “1963”, pois contém as tiras de jornal semanais publicadas originalmente nesse ano. Sim, mais de 57 anos separam-nos do trabalho original criado pelo canadense Harold Rudolf Foster (ou apenas “Hal Foster”), um dos maiores gênios da nona arte anglófona.




A primeira publicação de Príncipe Valente ocorreu em 1937 e foi marcante como ele se diferenciou das outras tiras da época pelo seu traço e personagem realistas.

Foster se preparou para criar seu guerreiro de capa e espada: muito antes de apresentá-lo ao seu editor, ele fez uma extensa pesquisa lendo sobre História Medieval, literatura de cavalaria, mitos sobre rei Arthur, costumes e tradições da Europa do medievo etc. até chegar ao intrépido... Príncipe Arn! Porém, tal nome foi recusado pelo seu editor e ele teve que mudá-lo para Valente, o príncipe das terras do norte.


Apesar de ser um dos cavaleiros da Távola Redonda do Rei Arthur e servir a Camelot, Valente não é da Bretanha. Ele é nórdico, oriundo das terras de Thule (que seria uma região ao sul da Noruega). porém seu pai, Rei Aguar, é um rei desterrado, expulso de seu próprio reino. Aguar, seu filho, esposa e leias servos fugiram para a terra dos bretões e se estabeleceram nos pântanos, onde Valente primeiro perde sua mãe por enfermidades e, posteriormente, cresce e se desenvolve como um jovem corajoso e astuto. O início da jornada do protagonista é a sua luta para conseguir um lugar entre os cavaleiros de Camelot. E por anos ele irá provar repetidamente porque ele se tornou um dos mais próximos auxiliares do Rei Arthur.



Muito diferente dos personagens de outras histórias em quadrinhos, o leitor acompanha a evolução do herói: de criança para adolescente, de adolescente para jovem adulto, de jovem adulto para um homem de família. E não é uma evolução meramente visual: Foster se preocupou em mostrar como o comportamento muda, a psicologia muda, as ações frente aos desafios mudam.



São diversos os momentos difíceis de esquecer: a primeira morte em suas mãos, quase impulsiva mas não desnecessária; a primeira vitória que lhe entregou o título de Cavaleiro; seu primeiro encontro com aquela que se tornaria sua esposa, a Rainha Aleta das Ilhas das Brumas; suas vitórias sobre os invasores hunos; sua viagem para terras distantes, aquelas que seriam conhecidas séculos adiante como América; a reconquista de Vikingsholm; o nascimento de seu primogênito, Arn; a passagem pela decadente Roma; o primeiro passeio de Valente e família pelas terras natais de sua esposa, e assim por diante e não exatamente nesta ordem.



A Rainha Aleta se tornou uma personagem mais do que mera coadjuvante. Muitas vezes ela se torna a principal: evita conflitos com seu jeito de menina, enfrenta perigos apenas se utilizando de sua presença, vence homens brutais apenas com sua feminilidade. Eis uma verdadeira rainha, não somente pela sua linhagem real, mas por ter o poder de tornar homens em reis. Claro, ela é fiel ao seu amado Valente até a alma.

Não se ignora que Foster mistura História com estórias, tornando a antiga Bretanha e Europa medieval em uma terra cheia de possibilidades. Há incongruências históricas, como Valente presenciar a queda do Império Romano, pois não há uma data exata de quando se passam suas jornadas.



Uma das coisas mais comuns que vemos em suas aventuras são as vitórias sobre senhores de castelo: Valente pode ser um bom servo de Camelot, um bom marido, um bom pai, um bom filho, mas, acima de tudo, ele é um excelente paladino. Onde ele encontra injustiça, não tardará que tal lugar sinta sua mão forte – todavia, jamais um simples bruto, a força do guerreiro é sempre guiada pela inteligência do estrategista.


Foster não ignora o aspecto religioso: ele quis incluir em sua obra a expansão do Cristianismo em terras pagãs. É Valente quem leva os primeiros sacerdotes cristãos para terras nórdicas, devotas aos antigos deuses, para tentar mudar os costumes bélicos de seu povo, pois o Rei Aguar deseja a paz entre os diversos clãs de seu reino.



A arte de Hal Foster influenciou gerações de quadrinistas, que viam em sua obra possibilidades a serem alcançadas.

Embora tenha dado alguns spoilers acima, eu asseguro que há muito ainda a ser contado. Eu mesmo acabei de terminar este volume de 1963, apesar de já ter recebido todos os 81 volumes. O último volume se refere ao ano de 2018.

Ah, sim. Vale dizer que, apesar de Foster ter falecido em 1982 com 89 anos, Prince Valiant ainda é publicado e o leitor pode conferir a edição do último domingo gratuitamente no site da Kings Feature Syndicate (Comics Kingdom).


Uma última coisa: toda edição começa com um texto de algum especialista da obra. Esta, por exemplo, comenta sobre a primeira adaptação para o cinema de 1954 da 20th Century Fox. Particularmente, prefiro ler tais textos somente numa futura releitura dos volumes, pois muitas vezes contém informações demais (e retiram o elemento surpresa).


PRÍNCIPE VALENTE 1963 foi publicado pela Planeta DeAgostini em 2020, reunindo as tiras de Prince Valiant in the Days of King Arthur distribuídas em 1963 pela Kings Feature Syndicate.


Nota: 5,0/5,0.


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