• Michel Barcellos

Preconceito


Ilustração da capa do livro Em Defesa do Preconceito, de Theodore Dalrymple

Essa palavra é odiada até por aqueles que se declaram contrários a qualquer tipo de ódio, não percebendo que a aversão ao preconceito já é em si um preconceito.


Uma definição que um dicionário aleatório da search engine apresenta para a palavra preconceito é essa: qualquer opinião ou sentimento concebido sem exame crítico. Já a etimologia apresenta a seguinte definição: A palavra parece ter sido feita dentro do próprio Português, usando derivados de PRAE-, “antes”, do Latim e de CONCEPTUS, “resumo”, inicialmente “algo preparado, concebido”, de CONCIPERE, “conceber, engravidar”.


Tomando-se essas definições como base, a aversão ao preconceito está ligada à ideia de que não se deve formar opinião sobre algo sobre o qual se desconhece a origem. A ideia de “não se dever” fazer determinada coisa já carrega em si um conceito fechado que já foi previamente analisado e avaliado por outra pessoa, o que a torna para o seguinte que repetir o conceito fechado um preconceito.


Aliás, Anthony Daniels, sob o pseudônimo de Theodore Dalrymple, escreveu um ótimo ensaio, chamado Em Defesa do Preconceito, para explicar como naturalmente a mente humana é obrigada a trabalhar com esse tipo de concatenação de ideias para poder-se dar qualquer passo adiante, ou a sociedade não poderia acumular mais conhecimento que um único indivíduo sozinho.


Voltando ao tema do preconceito ao próprio preconceito, posso inequivocamente remeter sua formação à Enciclopédia, ou dicionário racional das ciências, artes e profissões, organizada por Diderot e d’Alambert durante o Iluminismo, que tinha a intenção de concentrar todo o conhecimento da sociedade em 35 volumes, para provar que a origem do pensamento poderia ser remetida ao conhecimento científico, ou seja, que remeter seus pensamentos e ações a conceitos fechados, de explicações que poderiam remeter à fé era algo incompatível com a capacidade de inteligência humana. Basicamente, eles formularam um preconceito novo: o preconceito ao preconceito.


Todo o Iluminismo trabalhou como uma grande campanha publicitária para disseminar esse novo preconceito, ganhando a atenção dos intelectuais da época, como no conto A Roupa Nova do Rei, onde apenas os inteligentes poderiam ver o tecido que compunha a roupa do rei – que na verdade não podia ser visto porque não existia. Algo que não pode ser visto porque não existe, mas que traz um grande status intelectual a quem afirma que viu. A formação desse preconceito foi necessária para, dentre outras coisas, firmar a ideia de que era possível e necessário a separação entre igreja e estado, tanto no direito quanto no raciocínio lógico dos súditos - ou futuros cidadãos, a serem formados pela engenharia social da Revolução Francesa.


Frontispício da Enciclopédia, com a Verdade radiante como a luz e, à direita, a Razão e a Filosofia arrancando o seu véu - extraído de Wikipédia

Um indício da impossibilidade de separação entre igreja e estado é demonstrado no momento em que a Revolução Francesa sequestra para si a Igreja Católica da França, obrigando os sacerdotes a submeterem-se aos ideais da revolução. Muitos desses sacerdotes eram eles mesmos assinantes da Enciclopédia e recebiam seus fascículos em suas residências ou escritórios periodicamente. A prova definitiva vem anos depois, quando Comte é obrigado a formular uma religião para servir de base para a sua filosofia positivista pseudocientífica, que serviria de matriz ideológica para a formulação das leis e estruturação do estado.


Dessa propaganda e militância contra os preconceitos estabelecidos na sociedade anteriormente surge um novo corpo de preconceitos para serem tomados como base para a nova sociedade que estaria sendo planejada. Estabelecida essa nova sociedade na França, o modelo pôde ser copiado para os países vizinhos e distantes, com a ajuda de Napoleão Bonaparte.


Apesar da derrota estratégica de Napoleão por Dom João VI, aquele consegue seu triunfo anos depois, quando Portugal absorve completamente as políticas napoleônicas, fazendo Dom Pedro I ser obrigado a declarar a independência do Brasil, não conseguindo evitar de trazer com ela uma semente do novo corpo dogmático dos preconceitos iluministas: a constituição moderna, aos moldes da concepção artificial de sociedade criadas por Hobbes, Locke e Rousseau.


Então, quando Comte cria suas teorias para fundamentar o novo corpo dogmático o Brasil já está preparado para recebê-lo. Ainda que a proclamação da república tenha sido um golpe, eu duvido que as ideias positivistas não tivessem ocupado nosso país caso houvesse a manutenção da monarquia.


Com este pequeno resumo da ópera eu quero destacar a força que os preconceitos têm na ocupação do imaginário e na capacidade de raciocínio dos indivíduos. A partir dos preconceitos iluministas, novos puderam ser formados sob o falso manto de produção científica, o que levou ao cidadão moderno um empilhamento de preconceitos que fazem seus raciocínios lógicos e suas capacidades de compreensão de ideias estarem completamente contaminados por falácias.


Por exemplo, o conceito de “homem natural”, propagado pelo Iluminismo, carrega a ideia de que o que fundamenta a sociedade é o estado, dando base para a necessidade de uma constituição moderna, em completa oposição à narrativa bíblica de sociedade existente anteriormente ao estado. Yoram Hazony aproveitou para estudar a formação de outras sociedades e percebeu que a capacidade de associação do homem é inata e nada tem a ver com o pacto social que formaliza a criação do estado – a constituição moderna. Sucede que o conceito de “homem natural” está enraizado no coração de cada indivíduo da sociedade que nunca chegou a ouvir falar no nome do seu maior propagador e muito menos leu suas obras, pois é um preconceito muito bem firmado. Conversar com alguém sobre algum assunto que se oponha aos preconceitos dos quais esse alguém não sabe a origem faz com que essa pessoa simplesmente não consiga compreender o assunto, nem as ideias, nem mesmo as provas documentais!


Isso infere em dizer que não importa quão sérias sejam nossas pesquisas e nossos estudos, a mensagem não será absorvida pelo indivíduo que estiver tomado pelos preconceitos de origens iluministas. É por isso que gente de aparente boa vontade nos ouve e automaticamente começa a rotular-nos com ideias que não correspondem ao que estamos a proferir.


Além disso, a penetração dos preconceitos iluministas é mais alta nas classes intelectuais. Em consequência disso, por exemplo, qualquer processo judicial movido, que tomar por pressuposto a falsidade dos preconceitos de origens iluministas, terá grandes chances de nem mesmo ser compreendido pelo magistrado que o ler, elevando as chances de indeferimento do pedido. Ninguém poderá apresentar uma petição de quatrocentas laudas detalhando as refutações a cada preconceito e esperar que um agente do estado tenha paciência para lê-la, ou mesmo capacidade para compreendê-la.


Ante a incapacidade apresentada por inúmeras pessoas de compreender muitas ideias sérias pela adesão a preconceitos falaciosos eu ressalto a necessidade de uma iniciativa de contrapropaganda para profilaxia intelectual da sociedade. 2020 foi o ano em que os preconceitos falaciosos levaram o mundo inteiro a padecer de histeria. A propaganda da mídia atual não teria sido bem sucedida não fosse o conjunto dogmático de preconceitos falaciosos que ocupavam o imaginário popular.


A ignorância é um livro aberto para a apresentação de ideias e é por isso que o professor Olavo de Carvalho diz que não há pré-requisitos para se matricular no seu seminário de filosofia, pois quanto menos conhecimento se tiver, menos preconceitos o aluno irá opor às ideias que ele apresenta.


Então, não é exatamente de ignorância que padece o povo, mas da super-ocupação das falácias no imaginário, que contaminam o raciocínio lógico. Essas falácias habitam as mentes na forma de preconceitos, ainda que preconceitos realmente sejam uma ferramenta básica de atuação do cérebro humano no intuito de otimizar a capacidade de ação. Ou seja, o problema não é o preconceito, mas QUAIS SÃO os preconceitos. Diderot e d’Alambert demonstraram através da Enciclopédia uma forma eficaz de firmar preconceitos; Edward Bernays apresentou algumas outras em sua obra Propaganda; Gene Sharp apresenta outras diferentes em sua trilogia The Politics of Nonviolent Action (não, não é em Da Ditadura à Democracia; aquele livro é apenas introdutório). Além deles, Robert Cialdini, Pascal Bernardin, Scott Adams e muitos outros apresentam diversas ideias, documentos, estudos e experiências científicas sobre detalhes mais específicos na formação e na destruição de preconceitos para a substituição por outros.


Para finalizar, o preconceito que eu quero deixar aqui é: se tu acreditas em alguma ideia tu deves trabalhar para que ela atinja o nível de ocupação do imaginário comum a ponto de virar um preconceito. Isso, é claro, sem nunca antes deixar de investigar a verdadeira origem dessa ideia. Investiga todos os preconceitos de origem iluminista que habitam a tua mente e elimina-os definitivamente da tua cadeia de processamento lógico.