• Evandro Pontes

Presidência da Câmara: a porta do Inferno para improvisadores



No Presidencialismo de Coalizão, caminho claramente adotado pelo PR Jair Bolsonaro para liderar o país desde abril de 2020, o segredo do sucesso está na Presidência da Câmara.


O estadista que inventou esse esquema de governo, FHC, em parceria com ACM, faziam largo uso das conexões com a Mesa da Câmara para trazer a chamada governabilidade para a sua forma de condução da política no país. FCH teve na mesa da Câmara nada mais, nada menos do que Luis Eduardo Magalhães (o filho de ACM), Michel Temer e Aécio Neves. Blindagem como essa só Lula conseguiu com João Paulo Cunha, Aldo Rebello e Arlindo Chinaglia.


E como conseguiam essa proeza?


Simples: FHC e ACM armavam desde a campanha essa coalizão. Lula seguiu esse modelo evitando se isolar politicamente, ampliando-o. Sofisticou os esquemas de "coalizão" e profissionalizou o balcão de negócios e a bolsa de troca de cargos para garantir a sua popularidade e os rios de dinheiro para o Foro de SP. Lula foi esperto o bastante para criar, nesse rio, inúmeros afluentes para o Centrão - o maior deles foi o rio do PP (Progressistas, partido da sua Ministra Damares Alves).


Tanto FHC/ACM quanto Lula evitaram improvisar politicamente durante o curso dos respectivos mandatos pois prepararam os esquemas durante a campanha.


Dilma Rousseff, por sua vez, fez campanha porca.


Politicamente, suas campanhas eram assaz ridículas e isso obrigou-a a improvisar durante o mandato.


Durante o primeiro mandato, tudo foi tranquilo pois Dilma se beneficiou da condução do petista Marco Maia. Ao fim do mandato de Maia em 2013, assumiu Henrique Eduardo Alves, que era Ministro do Turismo de Dilma. A tranquilidade foi mantida à fórceps sob o comando do MDB, o coração do Centrão e o olhar atento do Progressistas, a alma do Centrão.


Mas logo que Eduardo Cunha assumiu as funções na presidência da Casa, até o seu correligionário Michel Temer (vice e parceirão de Dilma até então), botaram a mulher-sapiens para correr. O coração do Centrão bateu com o ódio necessário e em menos de 1 ano, tomaram o poder para si.


Pois bem - Bolsonaro foi eleito com uma estratégia bem diferente: a de destruir o toma-lá-dá-cá; logo, não governar segundo a estratégia do Presidencialismo de Coalizão. Durante a campanha, seus aliados eram o povo e as pautas que esse povo pedia para que Jair liderasse.


Bolsonaro tinha bem claro, enquanto ainda dava ouvidos a Carlos, de gerir o país em um presidencialismo de pautas. Foi assim que conseguiu votos do NOVO para aprovar a mais brilhante reforma da previdência em uma das mais fantásticas tacadas políticas já vistas. Na captura política por pautas Bolsonaro conseguiu até forçar Tábata Amaral a votar favoravelmente à reforma de Guedes, contra a orientação do presidente de seu partido, Ciro Gomes e na linha da orientação de seus verdadeiros chefes do RenovaBR.


O sucesso dessa política estava, contudo, com os dias contados.


Alguém (e sabemos bem quem) convenceu Bolsonaro a mudar de estratégia.


De abril pra cá, saiu da política de pautas (estratégia essencialmente ideológica e de confronto direto) para uma política de coalizão (estratégica essencialmente fisiológica e de jamais encarar confrontos diretos).


A política de pautas é em seu âmago uma política de parlatório, coisa que Jair sempre fez com maestria quando era deputado; a de coalizão, é uma política de bastidores, de fontes, de corredores, de salinhas, de jatinhos, de salas fechadas, de troca-troca, de reembolso de pão-na-chapa e por ai vai.


Ao fazer seus deputados abandonarem o parlatório para trabalhar em corredores, em restaurantes, em salinhas de aeroporto, em jatinhos, e outros nas redes sociais, Jair Bolsonaro criou uma dependência que não tinha antes: a da Mesa da Câmara.


Esses deputados passaram a trabalhar para os líderes de partidos e não o inverso (antes, na política de pautas, eram os líderes que trabalhavam para os deputados). Aquela porcaria forjada por Sarney e consolidada por FHC, após ser sofisticada por Lula, voltou com toda a sua força e truculência.


Essa mudança de abril o obrigou, portanto, a entrar no jogo, de maneira bastante improvisada e canhestra, na disputa da mesa da Câmara.


Hoje Jair não é apenas refém do presidente da Casa - pior: ele se tornou refém de um candidato.


Exatamente como fez Dilma ao se envolver de forma improvisada nos bastidores da disputa pela presidência da Câmara no início de 2015, Bolsonaro entra em um remake desse filme B. O MDB de seu vice Temer lançou Cunha e Dilma caiu na enrascada de interferir no pleito lançando Chinaglia, que rachou votos do "governo" com outros dois comunistas: Julio Delgado e Chico Alencar. A oposição só ficou observando, exatamente como está acontecendo agora; na esperança de tirar uma casquinha quando a casa caísse para a Estocadora de Vento.


Com Cunha na presidência, as portas do Inferno se abriram para a "Damares do PT".


É exatamente o que vai ocorrer se Jair Bolsonaro não tirar rapidamente o corpo fora dessa disputa (sinto, contudo, que seja tarde demais...).


Estão na mesa os nomes de Arthur Lira pelos bolsonaristas, da Ministra Tereza Christina ao Centro (o que colocaria Jair em uma situação muito delicada) e de dois Rossis (Baleia e Agnaldo) alinhados com a centro-esquerda.


Sim, ambos os Rossis vão buscar apoio no PT, PSB, PCdoB, Psol et caterva, assim como Cunha do MDB de Temer (o Vice-presidente) e de outros 8 ministros de governo, buscou apoio na "direita" para fincar os pregos no caixão de Dilma. Nota: há ex-ministros de Dilma que hoje se apresentam como líderes do governo e estão diretamente envolvidos nos bastidores da disputa - são eles o Senador Fernando Bezerra (líder do governo Bolsonaro no Senado) e o ex-prefeito Crivella (candidato que recebeu o apoio de Bolsonaro a sua reeleição pelo RJ e tem forte influência entre deputados do Republicanos).


E qual o interesse dessa gente nos Rossi ou, em caso de deslize de Bolsonaro com Lira, trazer até este para o barco da esquerda?


Simples - esses são os nomes que estariam dispostos a pautar um impeachment de Bolsonaro por qualquer motivo por mais esdrúxulo e idiota possível.


Bolsonaro tornou-se refém de Lira e a coisa pode ficar ruim alguém do MDB (Baleia) ou PP (Agnaldo) topar brigar pela fatia de poder que dá ao vencedor as chaves para abrir as portas do Inferno para o presidente da república que tiver optado burramente pelo presidencialismo de coalizão com o trem andando.


Vale lembrar que todos os ex-Ministros de Dilma filiados ao MDB e ao Progressistas in illo tempore, acabaram na cadeia (Bezerra, hoje no MDB, era do PSB quando foi ministro Dilmuié).


Há meses o PR Jair Bolsonaro vem armando os inimigos contra ele próprio e tem custado a acreditar que o erro que está cometendo, compromete não apenas a ele, mas quem esteve com ele até então.


Diga não ao Centrão, PR!

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