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  • Michel Barcellos

Princípios científicos



Eu estou estruturando minhas ideias de modo que eu consiga identificar o que é coerente e o que não é e assim eu possa resolver problemas, em vez de criar outros, como tem ocorrido nos últimos séculos.


O ponto que eu quero realçar e que não encontro ninguém que manifeste concordância senão em sentido abstrato, é de que Deus — seja o Verdadeiro ou algum falso — está no princípio de todas as coisas, inclusive das ciências, em aspecto objetivo e central. Desse modo, é a escolha de qual deus servirá de base à busca científica que determinará para onde o conhecimento será direcionado.


O mais próximo que eu encontro desta minha percepção é um deslocamento de Deus para uma posição satélite ao cerne de suas pesquisas. Com esse objetivo, eu busquei ajuda no livro “Aristóteles em nova perspectiva”, do Olavo de Carvalho. Nele, o autor faz um estudo dos quatro discursos aristotélicos na busca pela verdade. Destaquei o seguinte trecho para analisar:


“Se todo discurso é movimento, partindo de algo para chegar a algo, e se excluímos a possibilidade do discurso infinito, que partisse do começo absoluto de tudo para chegar ao absoluto fim de todas as coisas, passando por todas as coisas possíveis, então podemos concluir que todo discurso é segmento. Pode ser prolongado indefinidamente, para trás – rumo ao fundamento último das premissas – ou para a frente, na série indefinida das consequências” (Olavo de Carvalho, Aristóteles em nova perspectiva, 2ª ed., p. 68).


Para orientar-me nessas conclusões básicas do professor, eu tomo as seguintes medidas universais:


"Eu sou o Alfa e o Ômega, diz o Senhor Deus, aquele que é, que era e que vem, o Dominador” (Apocalipse 1:8);

"Novamente me disse: Está pronto! Eu sou o Alfa e o Ômega, o Começo e o Fim. A quem tem sede eu darei gratuitamente de beber da fonte da água viva” (Apocalipse 21:6);

"Eu sou o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Começo e o Fim” (Apocalipse 22:13);

"No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus" (João 1:1); e: "Jesus lhe respondeu: Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim" (João 14:6).


Todos esses versículos são tomados como princípios de ação na vida, olvidando-se que a vida intelectual não está aquém da vida completa. Quando Cristo afirma que Ele é o princípio, o caminho e o fim, disto podemos concluir que em nada devemos buscar deslocados dele, inclusive nos métodos científicos.


Ora, se o discurso parte de um começo para chegar a um fim, e Cristo já ensina que Ele é o começo e Ele é o fim e, além disso, Ele também é o caminho, já temos uma régua para medir todas as coisas, dentre as quais se encaixam: o conceito de “começo absoluto”, o conceito de “absoluto fim de todas as coisas”, e o conceito de “passando por todas as coisas possíveis”.


Não parece mais razoável tomar conceitos vagos e adequá-los a uma pessoa, do que simplesmente tentar tirar todas as conclusões a partir dos próprios conceitos vagos? Todo conceito vago serve de orientação relativa, suscetível de manipulação da verdade à medida que se desloca tal conceito para se adequar a premissa falsa oculta.


A premissa oculta existe sempre que uma premissa relativa é tomada por absoluta. Evidenciando-se como Cristo é a premissa absoluta dos conceitos “princípio”, “fim” e “caminho”, estes não podem ser utilizados como orientadores do discurso de forma mais segura, diferentemente do caso em que fossem tomados por entes em si mesmos.


Como reforço a esta percepção — em explicação ao termo “fundamento último das premissas”, — e como maneira de excluirmos “a possibilidade do discurso infinito”, ainda que toda premissa mova a uma conclusão, que se torna premissa para mover à conclusão seguinte, tomando-se o entendimento de que “todo discurso é movimento”, cada premissa é um motor e cada conclusão é o seu movido, voltemo-nos ao Doutor Angélico, em suas cinco vias para provar a existência de Deus, no que tange à primeira via, que trata da mesma questão levantada quanto ao caminho do discurso:


“[...] é impossível uma coisa ser motora e movida ou mover-se a si própria, no mesmo ponto de vista e do mesmo modo, pois, tudo o que é movido há de sê-lo por outro. Se, portanto, o motor também se move, é necessário seja movido por outro, e este por outro.


Ora, não se pode assim proceder até ao infinito, porque não haveria nenhum primeiro motor e, por consequência, outro qualquer; pois, os motores segundos não movem, senão movidos pelo primeiro, como não move o báculo sem ser movido pela mão. Logo, é necessário chegar a um primeiro motor, de nenhum outro movido, ao qual todos dão o nome de Deus” (Ia, q. 2, a 3).


Desta forma eu pretendo comprovar que não há um intelectual que possa fundamentar qualquer pesquisa sua sem a adesão a alguma fé, ainda que o próprio não tenha essa compreensão. Mas isso eu deixarei para outros textos.


Se a todos, com esta exposição, eu não demonstrei como a busca pela construção do conhecimento está manca e imperfeita — por deslocar o cerne da questão para uma posição satélite — pelo menos, para mim, parece que estou buscando na direção correta, ainda que me digam que estou me afastando do que os sábios dizem.


E só para deixar claro para quem quiser me interpretar mal: eu não estou me arrogando de autoridade para ultrapassar os sábios. Muito pelo contrário, estou me embasando neles para buscar as lacunas que se perderam na ciência.

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