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Quando não se aprende

Por Anthony Neto


Donald J. Trump é vítima da sua inação. Ainda em campanha (de 2016) ele já havia sido alertado sobre os riscos que a tirania do politicamente correto, sobre o domínio avassalador de ideólogos de esquerda nas universidades (e principalmente na Ivy League) e a dominância do discurso único nas redes sociais e na mídia convencional dos Estados Unidos da América.


No dia 21 de março de 2019 Trump assinou uma Ordem Executiva 13864 [1] sobre liberdade de expressão nos campi universitários de seu país, na cerimônia de assinatura da ordem havia uma pessoa em particular, o que me fez compreender como os republicanos estão atrasados nessa guerra, essa pessoa era Roger Kimball.


Roger Kimball, crítico de arte, publicou em 1990 o livro Tenured Radicals: How Politics Has Corrupted Our Higher Education, o qual possui tradução para a nossa língua (foi traduzido em 2010, chama-se Radicais na Universidade). Roger mostrou de forma detida e franca como o debate político do cotidiano estava infestando todo o núcleo das disciplinas nas ditas Ciências Humanas. Hoje, eu afirmo, não só nelas, mas também nas ditas Sociais aplicadas (como psicologia, economia) e nas áreas Médicas e Exatas e da Terra. Todas as disciplinas estão sendo infestadas de ideólogos voltados para a destruição dos núcleos das disciplinas, para que seja mais fácil utilizá-las como ferramenta ideológica de imposição de dominância sobre os indivíduos.


Louis Althusser, um marxista pouco lido, diga-se de passagem, escreveu um livro (Ideologia e Aparelhos Ideológicos de Estado) muito interessante sobre o que chama de aparelhos ideológicos de Estado, os quais ele separa em repressivos (polícia, exército, por exemplo) e ideológicos (famílias, sindicatos, igrejas, escolas, midiático e etc.) Althusser diz enfaticamente “nenhuma classe pode duravelmente deter o poder de Estado sem exercer simultaneamente a sua hegemonia sobre e nos Aparelhos Ideológicos de Estado” [2, pág. 49], a pergunta que faço é: quem tem exercido hegemonia sobre as famílias, escolas, sindicatos, igrejas e mídia?


Assim sendo, dado que você já sabe a resposta à pergunta que fiz, fica mais claro compreender porque Trump perdeu, e porque sua derrota, foi, sob certo sentido, uma consequência natural e óbvia de suas ações, ou melhor, inação; Trump demorou três anos para começar a entrar na guerra onde era realmente necessário, e ainda o fez pelos instrumentos errados (o presidente Eisenhower em seu discurso de despedida alertava para os riscos da tomada da universidade por parte dos interesses privados de tecnocratas e determinados empresários, e sobre como isso colocava a “experiência americana” sob risco [3]). Acreditar que uma simples ordem executiva pode ter algum efeito sobre o tem acontecido nas universidades mundo afora, é pura e simplesmente burrice, ou até má fé.


Trump começou a falar da “esquerda radical” apenas na sua campanha de 2020, e ainda de forma muito sutil, e sem endereçar soluções; a secretária nacional de educação, Besty DeVos, uma das mais leais até os eventos aberrantes e sem sentido da ocupação do Capitólio (algo absolutamente insano, qual seria o resultado daquilo se não havia o “algo a mais”?) sempre defendeu aguerridamente as charter schools, um modelo de escolas que freiam, em parte, o domínio ideológico existente nas escolas públicas e privadas daquele país, e o que Trump fez para ajudá-la nessa defesa? Nada de realmente efetivo.


Besty DeVos defendeu o modelo charter schools com muito pouco apoio institucional do próprio governo que integrava. Espero que o leitor entenda que o modelo charter schools é criticado de forma quase hegemônica, até mesmo nas universidades católicas daquele país, isto é, trata-se de um modelo que muito dificilmente resistirá a administração Kamala-Biden, e se consegui-lo, será de maneira muito deficitária e danificada.


É nas escolas e universidades que parte importante da guerra civilizacional é travada, e trago más notícias, a visão não esquerdista está levando uma surra mundo afora. Basta se ver o que ocorre nas reformas educacionais e discussões sobre educação e liberdade de expressão e pensamento em países como França, Inglaterra e Alemanha, ela já não existe mais!


O que temos hoje é um mero simulacro do que já foi, e os Estados Unidos da América que eram o último refúgio da liberdade de expressão - que nunca foi regra na História da Humanidade- já não o são, muito pelo contrário, hoje eles representam o grande laboratório de como se controlar os ditos “pensamentos e ideias perigosas”, para daí espalhar pelo mundo o seu modelo. Espero que entenda, que de nada adianta haver a Primeira Emenda, e um confeiteiro que se recusou a fazer um bolo para um casal de pederastas ter tido que ir a Suprema Corte para fazer valer o seu direito à liberdade. Muitos enfatizam a decisão da Corte, mas não percebem o absurdo que era pedido, e ainda assim foi acolhido em outros tribunais inferiores, e precisou o último grau recursal do país decidir sobre o caso.


Água mole, pedra dura, tanto bate até que fura. E isso é o que ocorrerá se não estancarmos o vazamento, a pedra rachará.


A Revolução Cultural que o Ocidente vivenciou pós os eventos mais radicais de 1968, está mostrando sua face mais sombria; na verdade já estava presente lá naqueles tempos, quando diversos intelectuais franceses simplesmente ignoravam os horrores que se soube que aconteciam na União Soviética.


Hoje a regra é afirmar que a censura é necessária para o “mundo melhor”, tristes tempos, mas são os tempos em que estamos vivendo. E compreender o que está acontecendo, é parte fundamental para nos posicionarmos, ainda que de modo individual.



[1]https://www.federalregister.gov/documents/2019/03/26/2019-05934/improving-free-inquiry-transparency-and-accountability-at-colleges-and-universities

[2] Althusser, L. Ideologia e Aparelhos Ideológicos do Estado. Tradução de Joaquim José de Moura Ramos. Lisboa: Editorial Presença, 1970.

[3] https://www.youtube.com/watch?v=wC7IBKCsuLQ



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