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QUE O BEM SEMPRE VENÇA O MAL?

Por Everaldo da Silva



Game of Thrones concorreu no Emmy Awards a surpreendente 32 indicações. Como explicar o sucesso da série? Pergunta complexa com uma resposta humilde, o sucesso ocorre devido ao desejo incessante dos indivíduos na sociedade contemporânea de buscar compreender as formas de chegarmos ao poder e lá permanecer. A série é um curso rápido de Ciência Política, digna de, inclusive, apresentar uma complexa relação de perdas e ganhos entre os personagens centrais, vencedores em parte ou durante um determinado período - porque as reviravoltas são constantes em todas as temporadas.

No final da série especificamente vimos na prática àquilo que Nicolau Maquiavel já alertava para o Príncipe, utilize todas as formas possíveis de se manter no poder, “[...] é mais seguro ser temido do que amado, quando se tem de desistir de uma das duas”.


O símbolo disso é a personagem Daenerys, que passou de uma pessoa com ideais humanistas e de salvação para, no fim, ter uma visão realista e de acordo com a genética familiar da busca e manutenção do poder a qualquer custo. A tirania se encaixa muito bem na dualidade de ser temida ou amada. Ela em grande medida sempre optou por ser temida, principalmente nos momentos em que é contrariada, muito similar com alguns gestores do mundo corporativo, que tem ojeriza por aqueles que opinam ou utilizam a razão de forma mais substantiva.



Dentro das organizações, muitos indivíduos têm seus atos regulados exageradamente, mas também a sua liberdade de pensamento e sentimento. No caso, vale destacar que na série temos os Imaculados (soldados eunucos), que vão ao encontro


do pensamento sociológico de Alberto Guerreiro Ramos, que chama de “homem operacional” aquele indivíduo passivo, que se deixa programar por especialistas para desenvolver sua função. Os Imaculados são treinados desde muito cedo a serem obedientes e não questionarem ordens superiores.


A rainha Cersei Lannister apresenta aquilo que, de tantas coisas, temos de muito ruim na humanidade: a inveja e a raiva. Ela também nos faz refletir sobre Maquiavel, “aprenda a ser mau, e que se sirva ou não disso de acordo com a necessidade”.


John Snow representa a bondade, a preocupação com a família, amigos e um demasiado senso de justiça, honestidade e ética, algo que o sistema e os tiranos desprezam. Pessoas como ele acabam por serem vistas como “dóceis” demais para um mercado competitivo e que corrói o caráter das pessoas.


Arya Stark simboliza a força da mulher. Mulheres como Arya passam muito tempo no anonimato, mas por vezes solucionam problemas complexos na sociedade. No término da série, Arya e não Daenerys, representa a força feminina.


Por fim, temos o personagem Lord Tyrion, o qual é um astuto negociador e libertário, se tornando um exemplo clássico do “líder carismático” do sociólogo Max Weber, ou seja, não é ingênuo como John Snow, mas é sensível e atento com relação às demandas do povo e com aquilo que ocorre em seu entorno. Nesse caso, sua posição numa negociação remete à cooperação no lugar do confronto e da disputa, colaborando com o ambiente em que esta atuando.


Game of Thrones não é muito diferente daquilo que vivenciamos: intrigas, fofocas, traições, maus e bons indivíduos, democracia x tirania, dor e alegria. A série nos leva a pensar sobre a nossa democracia e a disputa pelo poder, muitos são eliminados desse jogo caótico que é viver em sociedade e no campo político. Novamente lembramo-nos de Maquiavel “Nenhum indício melhor se pode ter a respeito de um homem do que a companhia que frequenta: o que tem companheiros decentes e honestos adquire merecidamente, bom nome, porque é impossível que não tenha alguma semelhança com eles”.


Mais humanidade, respeito e valores cristãos é o que precisamos em tempos de polarização e de destruição de moral, ética e honra. Igualmente a série, nunca sabíamos antecipadamente o que iria acontecer, mas a esperança é que sempre torcemos para que o bem vença o mal!





REFERÊNCIAS

G1. Game of Thrones' chega ao fim e HBO cita recorde de audiência em última temporada. Disponível em: https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2019/05/20/game-of- thrones-chega-ao-fim-e-hbo-cita-recorde-de-audiencia-em-ultima-temporada.ghtml.

Acesso em: 12 jul. 2019.


MAQUIAVEL, Nicolau. Discurso sobre a primeira década de Tito Lívio. Brasília: UnB, 1982.


. O Príncipe. Tradução de Maria Júlia Goldwasser. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.


OMELETE. Game of Thrones. Tudo o que sabemos sobre a série derivada. Disponível em: https://www.omelete.com.br/game-thrones/longa-noite-serie-derivada- tudo-o-que-sabemos. Acesso em: 12 jul. 2019.


RAMOS, Alberto Guerreiro. A nova ciência das organizações: uma reconceituação da riqueza nas nações. Rio de Janeiro, Fundação Getúlio Vargas, 1981.


. “Modelos de Homem e Teoria Administrativa”. Revista de Administração Pública, vol. 18, nº 2, pp. 3-12, 1984.




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