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  • Michel Barcellos

Reabertura das escolas 1


Fonte: Mídia do Wix

Há uns dias uma amiga compartilhou comigo uma postagem de rede social onde pedia-se pela reabertura das escolas.


A ela eu respondi que, por mim, as escolas não reabririam nunca mais.


Ao que ela imediatamente retrucou perguntando-me se eu tinha filho.


Puxar o eixo da discussão para o lugar de fala evidencia uma percepção centralizada no id, o sistema básico da personalidade.


Avaliar uma política de estado sob a perspectiva do id me parece ser um erro. Pelo menos sob o ponto de vista que os gregos tinham dos sujeitos que preenchiam todas as prerrogativas para participar da vida política e não o faziam.


Por isso que responder que eu não era casado deixou-a confusa e falando que não tinha me perguntado sobre minha vida amorosa.


Eu fiz isso inconscientemente, porque a persuasão ensina a nunca se colocar em uma posição de defesa e que a melhor defesa é o contra-ataque. Dos três níveis de persuasor destacados por Scott Adams, no livro Ganhar de Lavada, eu não sei nem se posso me considerar completo para ocupar o nível básico, mas eu tenho formação suficiente para atingir o nível de mestre, desde que eu me envolva nas experiências que trilhem o caminho até lá.


Mas a questão que eu estava querendo evidenciar era a de que a escola é uma relação do estado com a família e não do indivíduo com a sociedade.


Como explica Yoram Hazony, um estado sadio é a consequência escalar de poder que se inicia na família. No nível seguinte, a união de famílias funde poder em um clã, que por sua vez funde poderes em uma tribo, que fundem poderes em uma nação.


Essa não é uma teoria formulada por ele, mas apenas uma constatação da narração da formação do estado de Israel trazida pela Bíblia. Bem diferente de todas as sistematizações formuladas por Hobbes, Locke e Rousseau, que tiraram de suas mentes criativas (e de conclusões de teorias anteriores) que o estado era formado por indivíduos atomizados que entraram em acordo tácito, como se o estado tivesse surgido sem que ninguém percebesse.


Eu não nego que um estado possa surgir sem que ninguém perceba, muito pelo contrário. Na verdade eu quero justamente expor que um estado está surgindo sem que ninguém perceba.


Só que, diferentemente das ideias de Hobbes, Locke e Rousseau, que não tomaram conhecimento de um estado surgido à revelia da percepção da sociedade, porque nunca havia existido tal monstro, o tal estado se forma pela articulação de pessoas reais que querem tomar o poder a partir das sombras, não medindo esforços para dissimularem suas ações. E não é surpreendente que as teorias de estado de Hobbes, Locke e Rousseau sejam utilizadas como base para essa dissimulação.


O modelo de estado em que a família é a menor célula de poder e existe para garantir a existência dela é a nação. Cidade-estado poderia ser um modelo de estado em que a família fosse a menor célula de poder, mas não era capaz o suficiente para manter esse poder, por não possuir condições para manter defesas que garantissem que essa não fosse dizimada (pelo menos depois do surgimento das nações).


O modelo de estado que não tem a família como menor célula de poder é o império. O império é uma força que consegue manter a sua própria existência, com capacidade para defender-se de inimigos externos. O problema é que internamente ele mantém sua coesão através da opressão.


O meio mais simples de opressão é a presença física do corpo militar. Como não se pode manter essa presença física nos territórios extensos dos impérios, é necessário utilizar-se de meios complementares para fazer as populações se submeterem ao poder. Sabe-se que o Império Romano construía estradas e aquedutos nas terras conquistadas, que davam conforto maior aos povos e os ajudava a se sentirem animados a se submeter.


Por motivos semelhantes o povo israelita se sentiu desanimado a conquistar a liberdade. O tempo inteiro murmuravam que não lhes faltava água nem carne quando eram escravos. Esse povo aprendeu que a liberdade não era um direito, mas um compromisso, uma obrigação. Nem todos ali queriam ser livres. Muitos foram libertados na marra. Como filhos que são bem ensinados pelos seus pais, o povo de Israel aprendeu que tinha o compromisso de ser livre. E, ainda que tivesse sido levado cativo outras vezes, acabava reconquistando a liberdade. Esse espírito se manteve tão forte que, mesmo depois de quase 2 mil anos da expulsão dos israelitas de suas terras, conseguiram ter seu país de volta para eles.


Esse é o espírito da nação. A liberdade é um compromisso e sua conquista parte de práticas que se iniciam na formação de um núcleo básico de poder, que é a família, passando pelas suas associações sucessivas em clãs, tribos e nação.


Ou seja, o primeiro compromisso de um indivíduo para consigo mesmo e para com o seu próximo é constituir uma família.


Para mim é mais que evidente que o Iluminismo foi uma ação direcionada para constituir um império, pois suas consequências diretas foram a Revolução Francesa, as guerras napoleônicas e as independências americanas. E onde está o império aí: na constituição moderna.


A constituição moderna é o Contrato Social, de Rousseau. Rousseau (assim como Hobbes e Locke) presumiu que as sociedades se formavam pela associação de indivíduos atomizados, isto é, sem organizações intermediárias de poder. Ele chegou a essa conclusão olhando para si mesmo.


Rousseau não tinha família. Sua mãe morreu e seu pai o abandonou quando era criança. Saiu da casa onde morava muito jovem, para viver a vida como ele achava que ela deveria ser. Seu conceito de amor estava ligado a necessidades fisiológicas. Por isso também não tinha noção de compromisso ou de autoridade. Rousseau era o modelo perfeito de escravo do império. Rousseau era o modelo perfeito de indivíduo atomizado.


Com seu comportamento replicado, as pessoas não terão a menor compreensão do que é liberdade, acreditando em quaisquer coisas que lhes forem ditas a esse respeito. E o Rousseau além de ser o modelo perfeito de cidadão do império também tinha inventado a mentira mais adequada para contar às suas cópias produzidas em série.


A verdade é que Rousseau não era o único exemplar de cidadão atomizado que o Iluminismo elevou à categoria de iluminado. O Iluminismo foi justamente o encadeamento de ações para elevar sujeitos e ideias miseráveis à categoria de iluminados.


Deste mesmo movimento surgiu a ideia de amor livre, que deixou mulheres abandonadas com seus bebês e deu ocasião para o nascimento do feminismo.


Com a crença de que uma nação poderia surgir de um documento, as treze colônias britânicas da América trataram de utilizarem-se dele como escusa para se livrarem do domínio da Inglaterra. A ideia prosperou e a América inteira fundou novas nações apresentando o contrato social de Rousseau.


Com o mundo inteiro acreditando que a fonte de poder é o contrato social, logo nenhuma nação subsistirá e o império vigorará.


É claro que esse foi apenas um passo, um procedimento no meio de um processo longo e complexo. Mas o Iluminismo foi sua pedra angular.


Muito mais tarde o modelo de produção em série de indivíduos atomizados, como Rousseau, foi estruturado para cooptar pessoas desde tenra idade. Este é a escola, como conhecemos.


Pascal Bernardin mostra como toda essência do currículo escolar e todo modelo estrutural de todas as escolas do mundo é formada centralizadamente e como técnicas de manipulação psicológica são utilizadas para fixarem os valores desse currículo nas mentes dos futuros cidadãos atomizados.


As escolas não são exatamente iguais no mundo inteiro. Cada escola é formada por profissionais que se esforçam em desenvolver determinadas habilidades em seus alunos. Há escolas formadas por grupos de funcionários bem intencionados. Muitas escolas se esforçam para mostrar os resultados dos seus esforços ao final de cada ano e muitos pais aprovam esses resultados.


Nos últimos anos muitos pais começaram a ficar descontentes com os resultados apresentados em seus filhos nas escolas e muitos tentaram fazer algo para mudar a situação. Pediram por uma lei.


Não era uma lei que revogasse a obrigação de entregarem seus filhos às escolas, mas uma lei que fizesse as escolas funcionarem de outra maneira. Ou seja, realmente creem que devem ser forçados por lei para entregarem seus filhos às escolas.


A escola é um mecanismo de submissão ao domínio do império que se utiliza de poucas verdades para fazer-se acreditar em muitas mentiras. As escolas formadas por profissionais bem intencionados são capazes de inflar ao máximo esses resquícios de verdades para diluir no meio das mentiras. A única coisa para que isso serve é para fazer os alunos crerem com maior fé ainda nas mentiras.


Ou seja, quanto melhor a escola, mais dano ela será capaz de causar. O dano mais claro é que os pais descontentes com as escolas se associaram no país inteiro e criaram um movimento para continuarem podendo entregar seus filhos às escolas.


Ninguém faria isso estimulado pelo fato de as escolas serem ruins. Eles o fizeram porque queriam que suas escolas fossem como as boas. Como aquelas escolas boas, que servem veneno com bons temperos.


Existem muitos bons temperos: podem ser uma aprovação no vestibular, uma habilidade em matemática, artes, esportes. Mas o veneno é a atomização social e a sujeição ao império global.


Esse veneno está fazendo efeito dentro de cada um que envia seus filhos para escola com gosto. Porque ele não é um veneno que mata, mas um veneno que escraviza, como a droga da obediência, de Pedro Bandeira.


Ao ler as descrições dos métodos de dissonância cognitiva feitas por Pascal Bernardin, uma delas me despertou a memória: a dramatização. Lembrei-me que quando eu tinha seis anos de idade a professora da primeira série fez a mim e aos outros alunos dramatizarem uma peça de teatro em que as crianças com seus brinquedos (que tinham ganhado vida) organizavam uma passeata em que protestavam contra os pais entoando: “um dois três, vamos a cantar: crianças e brinquedos têm direito a brincar”.


Essa peça não se trata de desobedecer os pais e obedecer aos professores, mas de dessensibilizar a criança do poder de sua família para aliciá-la a ser súdita ao império. Antes o império oferecia aquedutos e estradas. E hoje oferece o quê? Brinquedos? Não. Direitos? Mais ou menos.


Ao ler a descrição que Benjamin Wiker traz de como Hobbes fez com que a palavra direito deixasse de conotar apenas aquilo que era correto para também conotar aquilo que era um desejo, ainda que imoral, eu percebi que o que o império oferece são desejos.


Depois de entregar desejos a suas futuras presas o império estabelecerá seu poder apenas com a promessa de cumpri-los. Se vai cumprir ou não, pouco importa. O que importa é que todos pensem que desejo é o mesmo que direito.


Só de pensar em que tipo de pessoas estão por detrás desse império que está sendo erguido ao longo desses últimos trezentos anos e a que tipo de coisas que eles pretendem sujeitar as pessoas que eu amo, minha expectativa de que as escolas não abram nunca mais fica apenas mais forte.