slider-1.png
  • Michel Barcellos

Reabertura das escolas 2


Fonte: Mídia do Wix

Eu deixei algumas pendências no último texto, porque ele tinha ficado muito longo.

Outro ponto que foi trazido à conversa foi que o conhecimento liberta. Suponho que tenha origem no trecho bíblico amplamente disseminado hoje, que diz “e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8:32). Vou deixar meu comentário ao trecho para o final.


Na verdade a ideia tem origem em um concílio do ano 633, de um cânone que disse: “Os padres, em particular devem evitar o erro da ignorância” (quod maxime in sacerdotibus dei vitanda est errorum ignorantia). Do concílio para frente tratou-se de abrir escolas para os sacerdotes que acabaram, no decorrer do tempo, alcançando todo o povo.


Ou seja, realmente há uma ideia boa por trás das escolas. Por sinal, as universidades surgiram dessa ideia boa. Mas é uma ideia boa no meio de muitas outras ideias péssimas.


Um fenômeno mau que se percebe em escolas é a incrível capacidade que elas têm de elevar os piores tipos de comportamentos dos grupos e fazer com que estes sejam absorvidos pelos seus membros.


Na quinta série eu fui estudar na maior escola pública da América Latina. Acho que deveria ter entre 6 a 8 mil alunos, não lembro. Um dos comportamentos que adquiri nos primeiros meses foi o de esperar o sinal de entrada bater numa das rampas de acesso às salas de aula. As crianças ficavam fazendo pressão para se dirigirem às salas de aula enquanto um fiscal vigiava para que ninguém ultrapassasse a barreira imaginária que ele impunha. Muitas crianças e eu fomos suspensas nas muitas vezes em que simplesmente saíamos correndo por através da barreira imaginária, já que isso parecia muito desafiador e divertido.


Um colega contou-me que certa vez ele foi à escola com um atestado médico que pedia para a professora liberá-lo para ir ao banheiro quando este sentisse necessidade e, após muitos pedidos de permissão para ir ao banheiro negados, o garoto levantou-se e dirigiu-se ao fundo da sala, onde liberou suas necessidades fisiológicas.


Anos mais tarde, quando eu já estava na faculdade e ia à escola apenas para levar e buscar minhas irmãs, então pequenas, vi meninas de 8 anos falando sobre quem havia ficado com quem. Detalhe: era um colégio de freiras.


Há hoje espalhada a crença de que mecanismos são dotados de autonomia para fazer o bem. Em que pese eu não ter lido a vasta obra de Auguste Comte, eu sei que a tecnocracia é o modelo de sistema em que se propõe um mecanismo para governar o estado, afirmando-se que ele é dotado de autonomia para se dirigir em direção ao bem, pois é guiado pela razão e pela ciência.


A história e a experiência mostram que mecanismos não são dotados de autonomia e que as direções que eles tomam são ditadas por quem está no controle deles. Na verdade, quanto mais complexo um mecanismo, mais ele é capaz de oferecer resistência a um dirigente que queira guiá-lo para o bem.


Esse conceito ainda não é bem compreendido em geral e por isso eu costumo ver pessoas bem intencionadas proporem mecanismos autônomos como solução para problemas diversos. O mais recente que eu lembro foi o jurista Modesto Carvalhosa propor que os ministros do STF ascendam ao cargo por promoção de carreira. Roberto Jefferson propôs a mesma coisa, mas este eu não acho que seja alguém bem intencionado.


Um produto dos meios de comunicação em massa que, apesar de ser um objeto de propaganda consegue, sem querer, passar uma ideia verdadeira é a série O Mecanismo. Foi dela que eu tirei essa nomenclatura para identificar sistemas que são propostos para se autogerir.


A escola é um mecanismo. Ela não é boa nem má. O sistema de ensino global é um mecanismo complexo do qual a escola faz parte, por força de lei. E mecanismos complexos oferecem resistência para dirigentes virtuosos.


Sob a perspectiva de que escola seja para escravos, ou para escravizar, ou para dominar, ou para entregar-se ao domínio, o uso desse modelo de ensino é coerente para sacerdotes, pois estes se esforçam para entregar seu espírito ao domínio de Deus. Para o povo em geral também faz sentido, pois a religião à qual o povo aderiu por vontade própria tem por verdade que esse é o caminho para atingir a felicidade.


Sob a perspectiva do conhecimento ou do domínio, tratando-se a escola de um mecanismo, seu direcionamento depende de quem está no controle dela. Se a escola é obrigatoriamente submissa a currículos centralizados por leis federais, que por sua vez são escritas em um órgão internacional, não dá para dizer que quem está no controle da escola é aquele simpático professor que sabe o nome do aluno, ou mesmo a diretora, que sabe o nome de todos os alunos. A influência que eles têm no mecanismo pode ser bem inferior à que imaginamos, por mais proximidade que eles possam ter com os indivíduos objetos de submissão (ou de conhecimento).


Se queres que alguém se submeta a um bom tutor, seja um bom tutor, ou contrate um bom tutor. Se o objetivo for inserir ideias confusas com capacidades de dano difíceis de medir de antemão, coloque-a na escola.


Como prometido, faço aqui meu comentário ao trecho sobre o conhecimento libertar:

Adão e Eva foram expulsos do Jardim do Éden por comerem do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Ou seja, nem todo conhecimento é bom.


Na primeira epístola aos Tessalonicenses, São Paulo encoraja a se examinar todas as coisas e reter o que for bom (1 Ts 5:21). Isso não é para crianças. No meio de uma enxurrada de erros identificá-los é impossível para um jovem aluno e muito difícil para um pai. Deixar um jovem frequentar a escola é brincar com o perigo.


No trecho “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” o núcleo da ideia não é o “conhecereis”, mas a “verdade”. O que liberta é a verdade, pois a verdade é o próprio Deus, como Cristo afirma em João 14:6: “Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim”.