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  • Amandaverso

Relato de um confessionário.

Quando me deparo com o silêncio e o vazio que há em mim, acabo me perguntando: “Para onde foram todos eles”? Com o passar dos últimos anos, fui ficando cada vez mais esquecido e vazio. Foi assim que comecei a me lembrar dos velhos tempos, em que minhas paredes fortes e robustas se elevavam com toda a sacralidade, tornando visível toda a moral católica. No meu acento se sentaram muitos sacerdotes, doutos e fiéis, que não se cansavam de ficar junto de mim durante horas e horas, exercendo seu ministério de cura das almas. Em meu genuflexório, repousaram uma grande multidão de almas, que consciente de sua ofensa a Deus pelos pecados cometidos, pediam perdão neste tribunal da misericórdia, no qual entravam culpados e saiam perdoados, deixando seus vícios e alcançando as virtudes. Que bela foi esta época, em que testemunhei dentro de minhas paredes santos sendo formados a imagem de Cristo. Porém, aos poucos, eu fui sendo esquecido, tanto pelos meus queridos sacerdotes, como pelo povo cristão. Não falavam mais de mim... Deixe-me lembrar, ah sim! Começaram a falar de que muitas coisas não eram mais pecado, usando de uma falsa psicologia para justificar seus erros. Inclusive a palavra pecado, ficou esquecida e a salvação deixou de ser o centro dos sermões, dando lugar a discursos políticos. Desta maneira, eu não tinha mais razão de existir, me tornei depósito de inúmeros objetos, fui trocado por uma sala “ampla” e “aconchegante”. Por vez ou outra, se lembravam de me limpar e tirar as teias de aranha, mas o tempo e o esquecimento fizeram com que os cupins começassem a me destruir. Certo dia então, vi um sacerdote vindo ao meu encontro e pensei: “Agora sim, serei restaurado”! Mas, para minha surpresa, pediu que eu fosse desmontado e colocado no forro da igreja. Anos depois, do forro, ouvi passos que se misturavam com o tecido da batina, batendo entre as pernas daquele novo sacerdote, e me lembrei dos velhos tempos. Dias depois, ouvindo seu sermão, percebi que a centralidade da salvação havia voltado, e foi somente uma questão de tempo, até que me descobrisse e me mandasse para o restauro, e assim foi feito. Me recordo com saudosa memória, daquele dia em que aquele jovem sacerdote, se sentou em meu acento, cheio de amor e zelo pela salvação das almas. Devagar os penitentes estão voltando, são poucos, mas já lhes ofereço um lugar digno e seguro para se encontrarem com a misericórdia de Deus. Sim, eu passei por tudo isso sabendo que estes dias voltariam, pois afinal, a fé, a tradição e os bons costumes permanecem. Autor desconhecido. Pela volta dos confessionários!