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Resposta a Michel Barcellos


Por RiPAdO


Caros amigos leitores da ShockWave News, li o último texto de Michel Barcellos até então, O que é ditadura da maioria? e acredito que pelo bem desse ambiente cultural que ocupamos, algumas confrontações se fazem necessárias.


Como meu interesse (principal) não é criar polêmica, tentarei ser direto e simples.


Tratarei o artigo do seu começo até a apresentação dos sistemas econômicos.


Seguirei a partir de dois livros que podem ser encontrados em domínio público na internet (em inglês): The Mercantile System and its Historical Significance, de Gustav Schmoller; e History of Economic Analysis, de Joseph A. Schumpeter; além de dois livros que a essa altura já fazem parte da lista de leitura de quase todos os que acompanham o ShockWave News: O Jardim das Aflições, de Olavo de Carvalho; e A Rebelião das Massas de José Ortega y Gasset.


I O Estado na Idade Moderna

“Com a entrada da Idade Moderna os estados já estavam compostos com os modelos mistos de formas virtuosas de governo de Aristóteles, conforme orientava Cipião Africano. Por esse entendimento de Cipião, Cícero e Agostinho é que os governos monárquicos reconheciam os estados que governavam como repúblicas.”(Michel Barcellos)

Michel começa afirmando que o Estado Moderno estava composto de formas virtuosas no início da Idade Moderna.


É uma afirmação complicada, a Era Moderna é a era de uma mudança radical na forma do Estado, a saber, a criação do Estado Nacional. Lemos em Schumpeter:


“In most of these countries (…) the prince came to personify the state and the nation from the sixteenth century on. He succeded in subjecting all classes to his authority- the nobility and the clergy not less than the bourgeoisie and the peasantry(…).”

Perceba que um príncipe lograr em sujeitar todas as classes á sua autoridade não é um fato compatível com um modelo misto, equilíbrio de monarquia, aristocracia e politéia.


Se esse estado de formas mistas virtuosas existiu ao final da Idade Média, a Modernidade é sua dissolução.


Porém, o poder do príncipe moderno é explicitado da melhor forma por Olavo de Carvalho:


“A fundação da primeira Igreja Nacional marca a metamorfose radical da ideia de Império, e assinala o verdadeiro início dos tempos modernos: tomando do Papa as chaves do Reino, o chefe de Estado se auto-nomeia representante de Deus. Com Henrique VIII, é César que volta ao trono, investido de prerrogativas sacerdotais.”

A consequência disso será:


“Como não poderia deixar de ser, os novos intelectuais logo se apressam em erigir em norma o fato consumado; teorizado ás pressas ex post facto, o expediente auto-engrandecedor de um assassino insano adquire a aparência de dignidade nas filosofias de Jean Bodin (Six Livres de la République,1576), Richard Hooker (The Laws of Ecclesiastical Polity, 1580) Thomas Smith (De Republica Anglorum, 1583), que, entre muitos floreados e um sem-número de ideias valiosas, nos impingem enfim a noção de que os reis governam por direito divino inerente ás suas pessoas e á natureza das coisas-e, independentemente portanto, de qualquer sanção religiosa."

A que distância está o Estado Moderno das formas virtuosas de Aristóteles!


Ao contrário da proporção e equilíbrio entre monarquia, aristocracia e politeia pregados pelo Estagirita, o Estado Moderno é dotado de uma Supreme Head gigantesca, grande a ponto de caber coroa em um homem só!



II Mercantilismo


“C. Mercantilismo: centralização da riqueza na figura do rei, com objetivo de levantar poder contra gnoses que estavam tomando corpo pela Europa; usura praticada pelos bancos nacionais recém-criados; concentração de ouro nos tesouros nacionais; autorização do rei era necessária para empreendimentos vultosos. O mercantilismo centralizava a economia no monarca. Dele vem a criação dos bancos nacionais. Criou um sentimento de insatisfação entre os gnósticos que veio a culminar com o Iluminismo e o capitalismo. Era um dos três modelos apresentados no Brasil colonial, mas que pouco atingia o grosso da população; se tornou o modelo principal com a independência.”(Michel Barcellos)

Vamos ao problema: A afirmação de que o objetivo do mercantilismo era levantar força contra as gnoses.


Para Olavo de Carvalho, a religião civil é o aspecto principal do gnosticismo.

Trata-se de uma herança da Roma Pagã, em que as autoridades civis eram dotadas de função religiosa.


Nesse sentido, a modernidade, a criação do estado moderno, o inchaço do poder real é, não uma oposição á gnose, mas é a gnose em si mesma.


Porém não devemos ficar no C’est ainsi que Olavo de Carvalho l’ait dit…


Quem eram esses gnósticos contra quem os reis,(todos os reis, pois essas políticas eram aplicadas em vário países) investidos de tanto poder, lutavam?


Lutavam contra os povos da África e Américas, que não podem ser chamados seriamente de gnósticos, e lutavam uns contra os outros.


E, se lutavam Inglaterra contra Espanha, depois Espanha contra Holanda, e depois Holanda contra Ingleterra… quem eram os gnósticos? Eram os calvinistas e judeus holandeses ou os Anglicanos?


Certamente, alguns diriam, que não eram os católicos. Mas e quando se punham a guerrear espanhóis e franceses, ou espanhóis e portugueses? A aliança de Portugal e Inglaterra contra Espanha era a aliança Anglicana-Católica contra gnósticos espanhóis? Ou o contrário?


Caramba! Não estou entendendo nada!


III Capitalismo

“D. Capitalismo (liberalismo): livre iniciativa; todos deveriam ter direito a empreender e todos deveriam ter direito a enriquecer, pois a mão invisível que move o mercado regulará a si mesma; geração de um sentimento materialista exagerado; diminuição na procriação derivada do materialismo; busca por experiências materiais; sentimento individualista; medição da caridade em valores pecuniários; diminuição da caridade. O capitalismo centraliza a economia nas grandes corporações pela incorporação do desejo de enriquecimento em todos os povos. Foi o modelo que motivou o golpe republicano.”(Michel Barcellos)

Comecemos pela afirmação da diminuição da procriação devido ao materialismo. Ortega y Gasset, em seu La Rebelión de las Massas, escreve:


"Hace algunos años destacaba el gran economista Werner Sombart un dato sencillíssimo, que es extraño no conste en toda cabeza que se preocupe de assuntos contemporaneos. Este simplicíssimo dato basta por sí solo para aclarar nuestra visíon de la Europa actual, y si no basta, pone en pista de todo esclarecimiento. El dato es el siguiente: desde que en el siglo VI comienza en europe, hasta el año 1800 – por lo tanto, en toda longitud de doce siglos –,Europa no consigue llegar a otra cifra de población que la de 180 milliones de habitantes. Pues bien: de 1800 a 1914 – por lo tanto, en poco más de un siglo – la población europea asciende de 180 a ¡460 milliones!”

Pois é, a Europa consegue em cerca de um século triplicar a sua população, muito mais do que foi feito nos doze séculos anteriores.


Qual é a explicação desse fenômeno? Voltemos a Ortega:

“Y rebosando toda la possible sofisticación, nos encontramos com la experiencia de que al someter la simiente humana al tratamiento de estos dos princípios, democracia liberal y técnica, en un solo siglo se triplica la especie europea.”

Não é meu interesse defender o liberalismo, assim como não era do interesse de Ortega, porém, esse dado deixam claro que não faz sentido colocar a culpa da diminuição de procriação no sistema liberal.


Gostaria de tratar de outras questões profundas, em especial a relação entre mercantilismo e liberalismo.


São ideias tidas como contrárias a menos se olhamo-las de forma doutrinal,como faz Michel Barcellos, e não quando o fazemos do ponto de vista das situações concretas ás quais se referem, um truque que aprendi com Olavo e Ortega.


(No caso do mercantilismo, isso deve ser entendido como a maneira principal de abordá-lo, já que trata-se de um conjunto de deliberações práticas a respeito de políticas públicas do início da modernidade.)


Porém é melhor partir para o último ponto: geração de um sentimento materialista exagerado, busca por experiências materiais, etc…


Saco de novo o meu Ortega:

“En el siglo VII antes de Cristo corría ya por todo el Oriente del mediterráneoel apotegma famoso: Chrémata, Chrémata aner! Su dinero, su dinero es el hombre! En tiempo de César se decia lo mismo, en el siglo XIV lo pone en cuaderna vía nuestro turbulento tonsurado de Hita, y en el XVII, Góngorra hace de ello letrillas.(…) Y de dónde viene esta convicción, segundo la cual el dinero debía tener menos influencia de la que efectivamente posee? Como no nos hemos habituado al hecho constante después de tantos, tantos siglos, y simpre nos coge de nuevas?”

Quem quiser saber a resposta, leia o Ortega, eu fico por aquí mesmo.


Obrigado pela atenção.