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  • Michel Barcellos

Resposta ao Leitor



Em agradecimento ao nosso leitor e ouvinte RiPAdO, pelo texto fazendo inferências ao meu último artigo, venho respondê-lo para esclarecer alguns problemas que foram levantados. E eu agradeço mesmo, porque as dúvidas levantadas por ele podem ser as dúvidas de outros, o que faz a resposta a um servir para aliviar os ânimos de vários.


O primeiro esclarecimento que cabe ser feito aqui é relacionado a termos semelhantes, mas que se referem a situações opostas. “Idade Moderna” não se associa com a ideia de “Estado Moderno”, mas, pelo contrário, se contrapõe frontalmente a ela.


A Idade Moderna representa o período que vai dos descobrimentos (séc. XV e XVI) ao Iluminismo e à Revolução Francesa (séc. XVIII). Ela está associada ao Antigo Regime. Já o Estado Moderno se inicia com a Revolução Francesa e a independência dos Estados Unidos (séc. XVIII), e se associa com a ideia de Idade Contemporânea.


Para quem já foi ao Starbucks e percebeu que o copo médio de café se chama “Grande”, notar que a confusão de termos poder levar à compra gato por lebre torna-se mais fácil.


Eu costumo deixar de lado as opiniões que referendam o Iluminismo nos autores, mesmo quando é o professor Olavo de Carvalho. Todo autor que coloca o Iluminismo como parte da Revolução Francesa, este está referendando o Iluminismo, pois a Revolução Francesa e a independência americana é que são partes do Iluminismo. A constituição brasileira de 1988 é parte do Iluminismo. As medidas sanitárias são parte do Iluminismo.


O Iluminismo é a raiz de todos os males e todos os movimentos gnósticos, heresias e mal-entendidos ocorridos nos períodos anteriores compõem a raiz iluminista, não sendo eles a raiz da raiz, mas apenas problemas que a raiz concatenou, ou os sais minerais que alimentaram a raiz.


Outro ponto trazido pelo leitor refere-se à centralização de poder como um mal em si mesma. Centralização não é o mesmo que totalitarismo.


Percebe, caro leitor, que a afirmação de Schumpeter sobre o século XVI vai exatamente ao encontro do que mencionei sobre o problema da gnose penetrando os governos. Tommaso Campanella (1568-1639) nesse mesmo século apresenta para o rei da Espanha um projeto para torná-lo o rei da cidade do sol, onde ele seria todo-poderoso. Condenado por heresia, Campanella se refugia na França, sendo acolhido pelo rei e fundamentando a doutrina de poder para o futuro rei-sol, que seria o rei Luís XIV.


Este problema realmente existiu e a citação de Schumpeter não se contrapõe à existência dele, mas reafirma-a. Quando em 1595 foram criadas as Ordenações Filipinas, as universidades de Salamanca e de Coimbra estavam empenhadas em resolver este problema gnóstico, estudando Santo Tomás de Aquino e Santo Agostinho, a mando do Imperador Carlos V, do Sacro Império Romano-Germânico.


Então, vede: uma codificação ibérica arrogava para si a solução de todos os problemas de aquém e de além-mar, enquanto na França acontecia um tipo de centralização que buscava o totalitarismo. Eram dois tipos de centralização, onde a primeira buscava a liberdade dos povos e a segunda buscava o aumento do poder do governante.


Este senso de necessidade de centralização pode ser remontado ao Antigo Testamento, onde em 2 Samuel 8 o povo pede para que Samuel escolha um rei do meio do povo para que possa liderá-lo em batalhas contra as nações inimigas, que insistiam em tentar dominar o povo de Israel. Este mesmo senso de necessidade é reafirmado por Tomás de Aquino em “Do reino ou do governo dos príncipes ao rei de Chipre”.


Em oposição a esse senso de necessidade de liderança é que temos o liberalismo, defendido por Hayek, e que eu contraponho no artigo “Individualismo e o caminho da servidão”[i].


É por isso que misturar a modernidade com o fim da Idade Média é um erro crasso. Pois o fim da Idade Média é o que marca o início do Antigo Regime. Desconhecer esse período é o que leva os povos a crerem no sistema de sufrágio universal pregado pelo Iluminismo, que é o que se contrapõe ao Antigo Regime.


Mas sim, com a Idade Moderna também surge o protestantismo, que é o que marca o surgimento das igrejas nacionais, como a anglicana, de Henrique VIII, mencionada pela citação a Olavo de Carvalho. O protestantismo não é algo que contrapõe o estado nacional ao cristianismo, apenas representa um fenômeno paralelo.


Apenas para elucidar melhor a questão, cerca de um século antes do surgimento do protestantismo Joana d’Arc foi alistada por Santa Margarida e por Santa Catarina de Alexandria ao exército francês, para levar o príncipe francês para ser coroado rei e dar fim à Guerra dos Cem Anos.


Quando as cortes do príncipe tomaram o anúncio de que uma adolescente camponesa queria levar o príncipe para ser coroado fizeram um teste com ela, para saber se pelo menos ela sabia de quem estava falando, escondendo o príncipe no meio da corte e colocando outro sobre o trono, ao que Joana olhou e disse que não era aquele o príncipe. Ao encontrar e reconhecer o verdadeiro príncipe, sem nunca tê-lo visto anteriormente, este lhe deu atenção e tomou coragem para ser coroado rei de França.


A Idade Média pode ser comparada com a adolescência humana, em que o indivíduo se descobre, entre a inocência e a responsabilidade. O que marca o início da Idade Moderna são os descobrimentos, que são a maturidade da sociedade, com o conhecimento do mundo inteiro onde esta vivia. Já a “modernidade” não é a Idade Moderna, mas a Idade Contemporânea, que é a queda da maturidade da sociedade nos vícios, apresentados pelo Iluminismo e fixados com a Revolução Francesa e a independência americana.


O Iluminismo foi como um jovem traficante a se matricular em uma escola para oferecer maconha aos alunos do ensino médio[ii]. A Revolução Francesa foi como o momento em que os já viciados furtam os aparelhos televisores de suas casas para saldar suas dívidas com o traficante, deixando suas famílias sem saber o que fazer.


A diferença da Revolução Francesa para a independência americana pode ser comparada às famílias que resolvem financiar seus filhos drogados, para que eles parem de subtrair seus bens. Estes, então, ficam ricos, mas suas vidas prosseguem numa sequência de catástrofes, enfileirando esposa atrás de esposa, deixando filhos sem criação, todos cheios de desordens psicológicas.



Esse vício da modernidade – que é a Idade Contemporânea, que se contrapõe à Idade Moderna – é o pensamento analítico. A Debs, do olabocós, canal do YouTube e perfil do Twitter, explica a diferença entre o pensamento analítico e o perfil do homem medieval, que ela chama de pré-experimental, com a análise de um desenho animado do Maurício de Sousa[iii], no qual protagonizam os personagens Magali e Dudu.


O Dudu crê que a tia dele – e da Magali – é uma bruxa, e a cada momento do episódio demonstra as situações que experimentam como provas disso. Já a Magali não crê nessas superstições atrasadas, pois apresenta o pensamento analítico típico do homem moderno, dando ao Dudu todas as descrições analíticas dos fatos apresentados pelo irmãozinho pré-experimental, que refutam a tese de sua tia ser uma bruxa.


Por causa desse vício analítico é que uma aluna do prof. Olavo de Carvalho passou vinte anos estudando a escolástica, até que o professor a informou que aquele período era apenas um pequeno recorte da realidade e que havia muita coisa para além da escolástica, o que deixou a aluna desolada, se perguntando o que havia feito com vinte anos da própria vida.


Eu tive minhas experiências que me fizeram perceber que a sociedade estava sendo direcionada para a apostasia, e ainda que nenhum intelectual fale nada a respeito desse assunto, ou muito pouco, eu tenho consciência que o meu conhecimento por presença tem valor maior do que o científico.


Se algum dia eu conseguir explicar completamente os meus conhecimentos por presença, então eu poderei ser um intelectual. No presente momento eu tento expor o pouco que eu consigo descrever para que mais gente tenha acesso ao que eu estou descobrindo aos poucos.


E, se eu digo que o Antigo Regime era uma combinação dos três governos virtuosos de Aristóteles, como pretendia Cipião, faço pelas descrições de Cícero, em Da República, de Agostinho, em A Cidade de Deus, e do professor Guilherme Freire, em aula no Instituto Borborema[iv].


Ainda que eu tenha perdido o trecho de documento em que eu guardo na memória a descrição do estado monárquico como república, mesmo que na prefação e na introdução das Ordenações Afonsinas eu tenha apenas encontrado o termo para descrever a República Romana, isso não invalida o fato de que os poderes eram mesclados, por rei, cortes, Igreja e povo.


É o pensamento analítico moderno que faz invalidar o que eu digo por não ter passado pelo crivo do consenso científico. Pelo pensamento medieval, as novidades de pontos de vista que eu trago seriam dignas de investigação mais detalhada.


O mesmo se dá com relação ao progresso inicial do capitalismo. As provas apresentadas pelo leitor sobre o aumento da população da Europa não refutam o fato de que o progresso do capitalismo é ilusório, mas reafirmam como uma ilusão repercutiu no mundo real.


Apesar de no meu artigo eu não ter mencionado a palavra ilusão, eu menciono o termo “criação de riqueza a partir do nada”. E esta é a ilusão. A queda de natalidade atual é consequência da mesma ilusão que no início causou o aumento da natalidade. Sobre esse fato trazido pelo leitor se aplica a minha descrição de saudades do período do liberalismo clássico.


Obviamente, eu não tiro minhas descrições do nada, mas das explicações do Padre Paulo Ricardo sobre “a mão invisível que destrói as famílias”[v]. O pensamento pré-experimental me permite dar atenção a vídeos do YouTube tanto quanto a intelectuais renomados, porque eu não estou dando a solução final para problemas, mas levantando questões que merecem ser investigadas.


A propósito, quando eu escrevo "homem-massa" em meu artigo, faço porque li "A Rebelião das Massas", de Ortega y Gasset, na sua versão traduzida. Também li José Pedro Galvão de Sousa, que escreve sobre Ortega y Gasset a partir da versão espanhola.


Mas eu não me estribo apenas em vídeos de YouTube. O Padre Julio Meinvielle escreveu dois livros sobre economia – “Concepção Católica da Economia” e “Conceitos Fundamentais da Economia” –, onde rechaça completamente o capitalismo como modelo econômico e ensina que o capitalismo destrói a economia, por ser[vi]:


· Devorador do interesse do consumidor, que não entra em conta senão enquanto permite a aceleração da produção e, com esta, a aceleração da ganância (por isso, como coisa genérica, se lhe proporcionam artigos supérfluos, ou de má qualidade, a preços relativamente caros);

· Devorador do produtor, que viverá febril na aceleração de sua produção e no melhoramento de utensílios técnicos, se não quer sucumbir na concorrência industrial;

· Devorador do comerciante, que se submeterá ao febril dinamismo do consumidor regido pela infinita velocidade do capricho e à aceleração das novidades industriais, sem ter tempo de liquidar seus estoques antigos; devorador do financista, que irá à casa do consumidor, do produtor e do comerciante, para acelerar também ele, vertiginosamente, sem dormir, a produtividade de seu dinheiro.


Todo intelectual imprime sua visão em suas obras e dela se pode distinguir entre os fatos trazidos por ele e sua interpretação. Eu costumo deixar de lado interpretações liberais, socialistas e afins, porque acabam me trazendo um contratempo na busca pela atitude correta a seguir conforme o cristianismo. Eu não estudo para ser um intelectual, mas estudo para resolver questões da vida prática, como um cristão.


A mim interessam percepções católicas, como as do Pe. Julio Meinvielle, sobre a Idade Média[vii]:


[...] A Idade Média havia logrado o milagre único na história do equilíbrio humano. Acalmadas suas paixões, o homem vivia em paz consigo mesmo, e vivia em paz com seus irmãos, no ordenamento hierárquico da vida social. Havia ordem sem violência, porque todas as partes da sociedade se moviam livremente no âmbito de suas funções, cada uma em sua própria esfera, sem absorver a inferior nem atropelar a superior. No cimo do universo social, hierarquicamente ordenado, dominava o Servo dos servos de Deus, como no cimo das preocupações humanas dominava “o único necessário”: o amor d’Aquele que se nos manifestou como Pai.


Cristãos podem trazer visões liberais e outras que se contrapõem ao cristianismo, sem que estes percebam. São estas as visões que contaminam a inteligência e, por consequência, o livre-arbítrio.


Viemos a um mundo em que todos os tipos de visões estão misturados e, com isso, os povos podem ser governados e direcionados para o abismo final, que é o inferno. Tudo que eu estudo é para permitir a mim e a cada um que ler a minha obra a libertação intelectual, para ordenar corretamente o livre-arbítrio e poder escolher por seguir a Cristo.


NOTAS:

[i] https://www.shockwavenews.com.br/post/o-individualismo-e-o-caminho-da-servidao [ii] No primeiro momento eu havia pensado em fazer a comparação com o traficante de crack que viciava trabalhadores adultos dos canaviais brasileiros, mas creio que a comparação da fase da adolescência não prejudica a linha de raciocínio. [iii] https://www.youtube.com/watch?v=RBPENCjPL2s [iv] https://www.youtube.com/watch?v=CKPFIzrTlhU [v] https://www.youtube.com/watch?v=q8dcdIJfWbI [vi] MEINVIELLE, Padre Julio. “Concepção Católica da Economia”. Vitória: Ed. Centro Anchieta, 2020, p. 22. [vii] Idem, p. 17.

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