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  • Michel Barcellos

Revolução Iluminista e Revolução Francesa


Tomada da Bastilha, de Jean-Pierre Houël. Biblioteca Nacional de França. Extraído de Wikipédia

Nos paralelos sobre revolução tratados por Plinio Corrêa de Oliveira na obra Revolução e Contra-Revolução, podemos alocar o Iluminismo e a Revolução Francesa como partes de um mesmo movimento revolucionário.


Quando Dr. Plinio analisa as velocidades harmônicas da revolução, ele expressa que a alta velocidade e a marcha morosa nos movimentos revolucionários complementam um ao outro e que não devem ser tomados por fatos distintos. Os movimentos revolucionários de alta velocidade servem para lançar as ideologias que são promovidas pelos movimentos de marcha lenta. Enquanto no imaginário popular espalha-se a ideia de que um grupo é radical e outro é prudente, os dois movimentos reforçam um ao outro na promoção da revolução. E é em razão disso que eu chamei o Iluminismo de Revolução Iluminista.


A Revolução Francesa é nada mais que uma aplicação prática das aparentemente inofensivas ideologias iluministas, que ora aceleram, ora freiam, mas nunca retrocedem a revolução. O Iluminismo é a razão pela qual a Revolução Francesa é vista com uma aparência romantizada e celebrada até hoje no mundo inteiro, apesar de ter sido uma enorme carnificina irracional. E a Revolução Francesa reforça o Iluminismo por ser a materialização de um objeto de culto a este.


Os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, que guiaram a Revolução Francesa foram formulados a partir de paixões humanas desordenadas, que durante o Iluminismo tiveram um reforço suficientemente potente para minar os corações rebeldes, até o momento em que a concatenação das ideias fosse levantada nas três palavras, usadas como estandarte. Essas três palavras não teriam o significado que tiveram durante a revolução – e têm até hoje – se não fossem precedidas da ocupação do imaginário pelo movimento cultural que antecedeu a Revolução Francesa.


Movimento cultural poderia ser apenas um eufemismo para o Iluminismo, não fosse o fato de que este movimento revolucionário deu-se na forma de produção de artigos, livros, novas formas de comunicação escrita, periódicos, peças teatrais, reuniões em bares e prostíbulos, e muitas outras formas de manifestação. Eu digo que este foi a primeira grande campanha publicitária do mundo, apesar de poder estar sendo muito impreciso ao fazer esta comparação.


Mas o fato é que as palavras de ordem “liberdade, igualdade e fraternidade” não teriam o mesmo sentido e valor no imaginário popular se não houvesse a disseminação de ideias promovida pelo Iluminismo. Um determinado trecho do hino nacional francês declara “liberdade, liberdade, querida”, figurando a personificação de um estado de autonomia do indivíduo.


S. Tomás de Aquino ensina que o homem não é um ente completo em si mesmo, pois sua existência decorre da criação, isto é, do criador, de Deus. O nome de Deus é Eu Sou porque Ele é o único que é em si mesmo, sendo a fonte da existência de todas as outras coisas e criaturas, não dependendo de nada mais além dele mesmo para existir. É essa noção de ente que liga a percepção de autonomia à capacidade de superar obstáculos para religar-se a Deus; e é daí que surge a ideia de ser a religião a fonte da liberdade, pois religião é a religação com Deus, fonte do ser, da autonomia e da liberdade.


A personificação do conceito de liberdade só é possível em decorrência da dissociação entre o ser humano e o Ente Perfeito, carregando a ideia de que o ser humano é o próprio ente perfeito, ou seja, deus. Da confusão criada por essa dissociação poderia ser gerado um livro inteiro para discorrer sobre o assunto, mas como eu não tenho tempo nem arcabouço intelectual para fazê-lo agora, eu apenas venho informar que tempos depois uma das soluções para esse problema foi a criação da Deusa Humanidade, por Auguste Comte, que na verdade só criou mais problemas ainda. Afinal, é isso que faz a revolução: criar problemas maiores para solucionar problemas menores e, com isso, dar margem para a criação de problemas maiores ainda.

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