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  • Michel Barcellos

Rousseau, o pai do conservadorismo



Que fique claro que este artigo é apenas uma especulação inicial. Para concluir se a afirmação do título faz sentido ou não eu terei que estudar muito mais.


De vez em quando eu assisto novamente à aula do prof. André Melo sobre o Iluminismo, para tentar extrair mensagens que eu não consegui absorver nas vezes anteriores, ainda mais por não conseguir ler os poucos livros da bibliografia que pude encontrar.


Dessa aula eu quero destacar um trecho que expõe uma citação do livro “Emílio ou da Educação”, de Jean-Jacques Rousseau, de uma fala do vigário saboiano (p. 363, 3ª ed., Bertrand Brasil, 1995):


“Sirvo a Deus na simplicidade de meu coração. Não procuro saber senão o que importa à minha conduta. Quanto aos dogmas que não influem nem nas ações nem na moral, e com os quais tanta gente se atormenta, não me preocupo absolutamente. Encaro todas as religiões particulares como instituições salutares que prescrevem em cada país uma maneira uniforme de honrar Deus através de um culto público, e que podem todas ter suas razões no clima, no governo, no gênio do povo, ou em qualquer outra causa local que torna uma preferível a outra, segundo os tempos e os lugares. Acredito todas serem boas quando se serve a Deus convenientemente. O culto essencial é o do coração”.


Esse trecho ressalta a relativização das religiões, mas ao mesmo tempo, Rousseau atrai atenção para os princípios que influem nas ações e na moral.


Após esse deslocamento de atenção, pouco importa a alegação de profissão de fé, pois a verdadeira fé estará no local onde estiver o foco de atenção.


Ou seja, na tentativa de se combater o espantalho da relativização, adota-se a premissa oculta apresentada pelo adversário, que é o deslocamento do foco de atenção. Creio que esse deslocamento se encaixa no conceito de paralaxe.


Em toda defesa do direito natural eu encontro essa paralaxe. Não importa as correlações com Deus que as defesas tragam, o foco de atenção está sempre deslocado.


Encontro essa paralaxe nos discursos de José Pedro Galvão de Sousa e nos de Eric Voegelin. Russell Kirk consegue fazer pior quando este descreve os dez princípios do conservadorismo.


Quando o conservadorismo coloca o direito natural no foco da atenção, ele tira praticamente toda possibilidade de busca pelo Logos ser tomada como fundamento da sociedade. Quando se desloca o centro da discussão, falar sobre a Verdade será tomado como uma ação satélite.


Diante da paralaxe lançada por Rousseau em Emílio, os estudos de Antoine Faivre sobre o esoterismo no século XVIII acabam sendo deslocados para fora do eixo da perversão da sociedade, como se fosse apenas um item acessório do Iluminismo.


Fossem as práticas religiosas do Iluminismo tomadas com o devido enfoque, poder-se-ia perceber que todas as ações conjuntas tinham como único objetivo elevar ao poder o deus das luzes, sendo a paralaxe sua principal arma de ação.


Os fatos que sucedem – e até alguns que precedem – confirmam meu ponto (as argumentações seguintes estão um pouco mais bem explanadas nos meus artigos anteriores).


Hobbes é o iluminista inglês que lança a tese do homem natural mau. Locke lança a antítese do homem natural bom. Rousseau lança a síntese de o homem ser naturalmente bom, mas a sociedade o corromper, coroando com o contrato social – que no fim acaba sendo o motor para a guerra de todos contra todos, inventada por Hobbes.


Ao que me consta, Hobbes era cristão e pode ter participado desse esforço conjunto sem o perceber. Rousseau inicia a vida como protestante, mas seus escritos fazem de tudo para desacreditar as religiões.


Voltaire era o profeta do anti-cristianismo, passou pela apoteose em vida, chegando até a abençoar o neto de Benjamin Franklin. Adam Weishaupt, com financiamento de Mayer Amschel Rothschild, tomou a ideia de exame de consciência – aprendido com os jesuítas – para criar um sistema de controle de cúmplices baseado na manipulação das paixões (Libido Dominandi, p. 19).


Benjamin Franklin foi um dos maçons que acorrentaram os Estados Unidos ao contrato social de Rousseau, também conhecida como primeira constituição moderna, mas que eu chamo de semente da discórdia.


Mayer Amschel Rothschild foi patriarca da família de banqueiros que comprou praticamente toda Inglaterra depois de espalhar um boato sobre a Batalha de Waterloo (há quem clame que essa própria história é boato). Hoje eles possuem meios mais eficientes para espalhar boatos, como a estimulação contraditória, na Reuters.


Com a mudança do foco de atenção, empreendimentos como a Iniciativa das Religiões Unidas (estudada por Lee Penn, em Falsa Aurora, bem como outros estudos semelhantes de Sanahuja, Roccella e Scaraffia) não são compreendidos da forma correta por ninguém.


Por mais que se compreenda como a psicologia comportamental pode ser usada para a mudança de crenças, todos os estudos sobre ações que se utilizam destas técnicas acabam chegando a conclusões deslocadas. Nota-se que muitas pessoas estão perdendo a fé cristã, mas não se nota que as que a seguem professando têm mudado seus padrões de raciocínio sobre certo e errado.


Eu explico essa mudança de paradigma na fé com um pouco mais de detalhes no artigo “O individualismo e o caminho da servidão”.


Sob essa perspectiva, não importa a religião que alguém siga, a percepção de mundo pode ser determinante para a adesão à religião diversa, à revelia da decisão pessoal.


É claro que pela graça do livre-arbítrio é impossível um homem se converter contra a própria vontade, mas a influência do meio pode ser grande o suficiente para fazer essa decisão parecer não causar mal algum, como Eva, ao decidir-se por comer daquele fruto belo, esquecendo-se de que era proibido.


Antes que surja alguém a dizer que eu também caí numa das falácias de Rousseau – aquela que diz que o homem é bom, mas a sociedade o corrompe –, deixo claro que a visão de homem que tomo é a de Santo Agostinho, que consiste na convivência com a dualidade entre queda humana e Graça Divina.


A sociedade está sendo preparada há três séculos, não para receber um governo totalitário, mas para aceitar a fé num novo deus, que é lúcifer. Quem não entende isso acha que a carta de Albert Pike é história da carochinha.