• Alexandre Nagado

Steve Ditko, o esquecido coautor do Homem-Aranha

Conheça o genial artista que foi um dos responsáveis pelo surgimento do Universo Marvel.

O Universo Cinematográfico Marvel se consolidou como uma das maiores mitologias da cultura pop mundial. Gigantesco e cheio de personagens variados, partiu de uma base sólida construída nas histórias em quadrinhos desde a década de 1960. O roteirista que concebeu a maioria dos personagens, Stan Lee (1922~2018), foi muito reverenciado em vida e suas pontas nos filmes da Marvel se tornaram alegóricas. Menor reconhecimento teve o desenhista Jack Kirby (1917~1994), coautor de Homem de Ferro, Thor, Quarteto Fantástico, X-Men, Vingadores e tantos outros. Kirby ao menos é bastante cultuado e reverenciado no meio dos quadrinhos, sendo chamado de Rei. Mas há um terceiro grande nome a se destacar na gênese do Universo Marvel, cujo valor é reconhecido nos círculos de fãs e pesquisadores, mas que é um ilustre anônimo perante o público em geral: Steve Ditko (1927~2018), coautor do Homem-Aranha e do Dr. Estranho.


O brilhante artista foi tema de um livro escrito pelo roteirista e jornalista brasileiro Roberto Guedes, lançado pela editora Noir em 2019. Sua pesquisa foi bastante extensa e permite entender a importância do autor, bem como conhecer seu gênio e seu difícil temperamento.


De origem humilde, Steve Ditko nasceu em 2 de novembro de 1927 e, desde pequeno, sempre fora fascinado por quadrinhos. Tendo estudado com Jerry Robinson (co-criador de Robin, o parceiro do Batman), começou sua carreira em 1953 e desenvolveu grande técnica, tanto como ilustrador quanto como contador de histórias, com um grande domínio de narrativa visual. Fazia quadrinhos de romance, faroeste, terror e qualquer gênero imaginável, sendo que tudo ganhava um tratamento gráfico adequado à proposta, sempre com um traço expressivo. Logo seu talento o levaria à Marvel, que estava em ascensão no início da década de 1960.

Steve Ditko em seu estúdio. Ao lado, a revista que

mudaria os quadrinhos de super-heróis para sempre.


Desde o início um artista de confiança de Stan Lee, Ditko foi o desenhista escolhido para ilustrar as primeiras aventuras do Homem-Aranha. Ele retratava com maestria pessoas comuns e seus dramas cotidianos, sem aquele senso de grandiosidade épica de Jack Kirby, o que caiu como uma luva para as aventuras do Aranha, que estreou em 1962.


Ditko criou o uniforme clássico e toda uma galeria de personagens coadjuvantes e vilões para o título. Cheio de ideias, bolou junto com Lee muitas das aventuras que depois iria desenhar. De temperamento forte, chegou a alterar histórias e chegar com outras praticamente prontas, restando a Lee muitas vezes a tarefa de somente redigir os balões - coisa que ele fazia com maestria, diga-se de passagem.


A segunda mais célebre parceria do desenhista com Stan Lee seria com o Dr. Estranho, um personagem criado por Ditko em 1963, mas cuja história de origem, feita depois de sua estreia, foi escrita por Stan Lee.


Entre as diversas contribuições do autor para as demais revistas da Marvel, está a primeira e mais icônica reformulação visual do Homem de Ferro, que trocaria a armadura pesada e tubular (semelhante à Mark 1 vista no cinema) para uma versão mais anatômica, colorida e elegante. Durante um tempo, ele assumiu os quadrinhos do Hulk e criou aventuras e personagens memoráveis para o título. Também foi ideia dele a inclusão, na capa das revistas da editora, de um selo com o rosto do personagem-título na lateral superior esquerda. Isso ajudava muito a visualizar a revista quando era disposta em prateleiras e virou marca registrada da Marvel durante décadas.

Ditko foi o responsável pela primeira

grande reformulação

da armadura do Homem de Ferro.


Em sua passagem pela DC Comics, criou o Rastejante, Shade The Changing Man e a dupla Rapina e Columba, depois incorporados aos Teen Titans. Estava longe do brilho que teve durante sua fase no Homem-Aranha, mas não perdia a qualidade e apuro técnico.


O autor não se limitou às duas grandes editoras, tendo deixado sua marca também na Charlton Comics, com histórias de terror e mais super-heróis; como o Capitão Átomo, Questão e Besouro Azul, entre outros que foram comprados pela DC e que serviriam de base, anos depois, para Alan Moore e Dave Gibbons criarem Watchmen.


Com seu temperamento explosivo piorando cada vez mais, Ditko foi ficando bastante recluso. Parte de suas dificuldades de relacionamento vinham da forma visceral com a qual se atirou no estudo da obra de Ayn Rand (1905~1982) e sua visão de mundo, condensada na filosofia conhecida como Objetivismo.

Ditko criou o Capitão Átomo,

que serviu de base para o

Dr. Manhatan, de Watchmen.


Ayn Rand foi uma filósofa e escritora russa que publicou várias obras de grande relevância no mercado editorial americano. Sua obra A Revolta de Atlas (1957) é referência ao apresentar uma realidade distópica socialista, onde os medíocres se aproveitam dos melhores em nome da justiça e da igualdade social. Calcada em uma postura pragmática, essa filosofia trata o egoísmo como uma virtude, tirando dele toda a carga pejorativa e reconhecendo que todos têm o direito de lutar pelo que acham ser melhor para si, desde que não se recorra à violência e se reconheça igual direito no próximo. Ela foi uma profunda inimiga do comunismo, socialismo e do feminismo, tendo lutado contra essas ideologias por toda sua vida.


Ditko foi profundamente influenciado pela filosofia de Rand, interpretando ao seu modo e com tintas pesadas, sem nuances. Isso se refletiu em histórias de heróis violentos (coisa que Rand rejeitava) e impiedosos, muitas vezes indigestas ao leitor comum. Mas o grande problema não estava na filosofia de Rand ou na interpretação de Ditko, mas sim no fato de que ele se tornou um artista panfletário, com personagens fazendo longos discursos a fim de doutrinar o leitor.

VR Troopers: Em fim de carreira, encomendas de trabalhos

menores para se manter.


Não havia muita sutileza nessa fase, que deixava o fator lúdico de lado em favor de militância política obcecada. Com tudo isso, seus últimos trabalhos foram de baixa tiragem e repercussão pífia. Para editoras maiores, alguns de seus últimos trabalhos para se manter em atividade foram desenhos à lápis para Fantasma 2040, uma atualização do clássico herói de Lee Falk, e VR Troopers, inspirado em uma série que reciclava produções japonesas de super-heróis.


Seu fim de vida, aos 91 anos, foi triste e solitário, mas nunca deixou de produzir quadrinhos, mesmo com idade avançada. Com uma vida intelectualmente rica e artisticamente muito produtiva, ele deixou um legado gigantesco, mas nunca teve o devido reconhecimento.


Com o belo livro de Roberto Guedes, alguma justiça foi feita. Apontando suas virtudes e genialidade, mas também seus defeitos e incoerências, o autor traça o fascinante painel de uma das mais controversas personalidades que ajudou a moldar os quadrinhos americanos e a própria cultura pop ocidental.


Título: O Incrível Steve Ditko

Autor: Roberto Guedes

Formato: 14 x 21 cm, com 264 páginas

Editora: Noir (2019)


- Texto escrito originalmente para o blog Reflexo Cultural e revisado para publicação no ShockWave News.

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