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  • Davi Eler

Um Sacrifício Por Amor


Era uma vez nos meados da Idade Média, em uma pequena aldeia no interior da Baviera, um casal de cristãos extremamente devotos. Eles pensavam inclusive em mandar seu primeiro filho (que ainda estava no ventre da mãe) para o monastério.


Eles tinham uma vida tranquila, depois que o marido, Gustav, saiu do exercito para ser fazendeiro e ter uma vida mais pacata. A rotina camponesa agradava muito aos dois, a esposa, Marie, adorava cuidar do lar e da pequena horta que eles tinha. E o esposo apesar de sentir falta da adrenalina das batalhas, se sentia bem em tirar leite das vacas, recolher ovos e alimentar os animais de sua pequena fazendinha.


Eles viviam muito bem, em paz e harmonia com sua vizinhança também, era uma rede de camaradagem impressionante. Qualquer coisa que alguém das redondezas estivesse precisando, todos os fazendeiros da região se juntavam para conseguir de alguma forma. Esse espírito de companheirismo ajudou muito o casal no começo, pois Gustav era desajeitado e bruto demais, já que a única ferramenta que ele utilizava com destreza era uma espada, pelo motivo de seus pais terem enviado ele ainda na tenra idade para aprender a ser soldado, tudo que ele conhecia era a guerra, a morte, conquistas, derrotas e brutalidade. Até que ele conheceu sua linda esposa; ela tinha cabelos lisos e loiros que acabavam abaixo de sua cintura, seus olhos azuis hipnotizavam qualquer um, de sua pele branca tenho certeza que até Freya sentia inveja, ela tinha um nariz fino e pequeno e seu rosto era delicado como um pétala de rosa.


Todos que via a mulher sabiam que ela tinha origem nobre, e isso era verdade. Seus pais foram governantes de um pequeno feudo nos arredores de Düsseldorf, porém sofreram um golpe de estado orquestrado pelo próprio irmão do rei. Os pais de Marie eram excelentes governadores, ao contrario do posterior, que por um péssimo reinado sucumbiu o reino, que terminou sendo dominado pelo bárbaros.


Enquanto isso, seu marido Gustav, vem de uma família de guerreiros, seu pai havia lutado ao lado do grande Carlos Magno, algo que eles sempre contavam com orgulho. As historias de guerra de seu pai, sempre o impressionaram, principalmente as façanhas do “Pai da Europa”. Gustav era um homem alto, devia ter quase 2 metros de altura, ele tinha cabelos negros como a noite, e olhos caramelizados como o mel, seu nariz era grande fino e imponente, e as cicatrizes em seu rosto imponham ainda mais respeito, além de seu peitoral e braços grandes e fortes. Ele já foi um grande guerreiro, talvez o melhor de seu exercito, mas resolveu abandonar essa vida, para poder ter dias tranquilos e pacatos, ao lado de sua dama doce e pura.


Tudo estava muito bem, tranquilo e em paz, porém um dia uma tropa de pagãos com cerca de 1.000 homens invadiu a região dos fazendeiros, os saxões sabiam que era uma forma fácil de conseguir comida, animais e mulheres para satisfaze-los.


O que eles não contavam era com a presença de Gustav ali, um guerreiro extremamente habilidoso e inteligente. Ele montou sua fazenda no alto de uma colina, exatamente para ter uma visão estratégica do vale dos fazendeiros, pois ele sabia que o risco de um ataque em suas fazendas era real. E quando ele avistou ao longe o exercito vindo, já tinha tudo preparado há mais de 6 meses. E ele montou defesas usando o terreno e os recursos naturais da região, de forma que a única entrada era um corredor estreito, aonde ele sabia que o número de soldados não importaria.


Então o ex-guerreiro preparou todos os fazendeiros homens aptos a lutar, escondeu as mulheres e os animais em um lugar seguro. Os 100 homens então esperaram pelo ataque dos 1.000 pagãos que vinham em sua direção. Eles chegaram, derrubaram o portão e vieram com tudo pra cima dos camponeses. Gustav estava na ponta de seus homens, cabia mais ou menos 3 homens em linha dentro do corredor, mas o marido de Marie era muito grande, de forma que somente ele e seu grande companheiro Johannes cabiam na primeira linha.


Os camponeses estavam morrendo de medo por causa da volúpia em que os saxões vinham para cima deles, Gustav ao perceber isso fez um discurso para encorajá-los: “Homens, hoje nós somos a espada da justiça de Deus, esses homens à nossa frente são assassinos de crianças, estupradores e inimigos declarados do Nosso Senhor Jesus Cristo. Eles devem sofrer a punição dos homens por seus delitos e pecados, e na eternidade Deus os punirá também, então façamos o tão honrado trabalho de mandar esses pagãos para a tribunal de Deus. DEUS VULT”.


Após as palavras de coragem do ex-combatente, os agricultores se encheram de animo e ímpeto para derrotar os seus inimigos. Eles lutaram por horas e horas, vários camponeses morreram, sobraram cerca de 40 no final, mas as perdas dos saxões foram bem maiores. No término da batalha eles tinha cerca de cento e poucos homens, conta-se que Gustav sozinho matou mais de 400 homens naquela batalha.


No final do dia, os invasores vendo suas enormes perdas decidiram bater em retirada, com isso os fazendeiros gritaram e ergueram suas espadas em comemoração a grande vitória que eles conquistaram. Mas Gustav não comemorava, ele conhecia esses guerreiros, sabia que eles não desistiam tão fácil.


Todos os guerreiros voltaram para dentro de sua aldeia, exaustos, alguns não conseguiam nem andar mais devido ao cansaço, o próprio grande líder da batalha, mal conseguia levantar sua espada. Ele juntou seus homens e em um discurso final proferiu as seguintes palavras: “Vocês lutaram muito bem hoje, pareciam guerreiros das cruzadas, sua coragem e determinação entrarão para a história e inspirarão seus filhos, netos e os filhos e netos deles. Mas nossa missão ainda não acabou, eu conheço esses guerreiros, eles não desistem fácil assim. Durmam, descansem, pois amanhã temo que será um dia mais difícil que o de hoje.”


Ele estava corretíssimo em pensar dessa forma, pois na metade da madrugada daquela noite, os saxões conseguiram invadir no silêncio, matar os vigias e entrar nas casas matando os camponeses um a um. Porém ao chegarem na casa de Gustav a história foi diferente. Ele estava sentado em uma cadeira de frente para sua porta com sua espada longa e afiada nas mãos, quando três saxões invadiram sua casa.


Ele não deu tempo para eles entenderem o que aconteceu, com um movimento rápido e firme de sua espada, ele cortou a barriga de um, a garganta do outro e enfiou sua espada no peito do terceiro. Sua esposa Marie já estava em um local seguro, então ele não precisava se preocupar com isso, o guerreiro sai de sua casa e vai enfrentar os pagãos do lado de fora. Ao ver a cena externa seu coração se enche de ódio. Os invasores estavam queimando as casas, estuprando as mulheres e espancando os homens. Ele dá um brado de raiva, para externar um pouco do sentimento que dominava seu coração naquele momento, e parte pra cima dos seus inimigos como um animal ensandecido.


Quando o sol começa a raiar ele vê que se encontrava exatamente no mesmo lugar que gostaria de ter saído, caos, destruição e morte o cercavam. Naquele instante Gustav se perguntava se ele não atraia esse tipo de coisa para as pessoas ao seu redor.


O guerreiro é tirado de seus pensamentos ao ouvir gritos familiares, eles vinham de sua casa. Não é possível, Gustav pensava. Será que eles descobriram o esconderijo de Marie? Esse questionamento em sua cabeça o atormentava. Ele corria com todo o restante de suas forças, mas o cansaço finalmente estava tendo efeito sobre seu corpo, suas pernas estavam moles e bambas, seus braços mal o respondia, ele com certeza havia chegado em seu limite como homem.


Mas a cena diante dos seus olhos inflamou seu coração e vitalizou seu corpo. Ao chegar em sua casa ele vê do lado de fora, quatro saxões prontos para violarem sua esposa. Ele cerra os punhos e os dentes e parte pra cima deles gritando como um leão. E apesar de todas as limitações físicas ele consegue matar a todos, realmente era um guerreiro formidável.


Gustav corre desesperado para sua mulher, a abraça como se ela fosse uma tábua em um oceano furioso. E desconfio que era exatamente assim que ele se sentia, envolto por um oceano de morte, sangue, destruição e caos, e Marie era sua tábua que o impedia de se afogar em tudo isso. Eles se olharem, o marido limpou as lágrimas que escorriam do rosto de sua mulher, e ali no alto daquela colina no nascer do sol eles sentiram que nada poderia separar os dois, e que o amor que parecia impossível crescer mais, havia crescido.


Porém lá embaixo restava um guerreiro saxão, um arqueiro para ser mais exato, que dispara uma flecha em direção aos dois. Gustav ao ver que ela atingiria sua amada, se joga e é acertado no peito bem no coração, mais uma flecha vem em sua direção dessa vez na barriga, e uma terceira para finalizar vem e atinge o outro lado do seu peito.


O guerreiro caí quase sem vida no chão, sua esposa em desespero e com lágrimas escorrendo no rosto se joga em direção ao marido e diz: “Por favor não morra, você não pode me deixar aqui sozinha com nosso filho, não me abandone”. Gustav então em um último suspiro de vida coloca sua mão no rosto de sua amada, e a acaricia. E dirige as seguintes palavras à ela: “Não existe nada mais precioso pra mim que você Marie, eu te amo mais que à mim mesmo, me sacrificaria mais mil vezes por amor à você. Pois você me salvou primeiro, me livrou de mim mesmo, então estou apenas retribuindo o favor. Você me libertou da minha vida de caos e destruição, me ensinou o significado de amor e me mostrou o poder da piedade, da gentileza e da bondade. Muito obrigado minha princesa. Eu te amo”. Após dizer isso a mão dele desliza devagar para baixo em um movimento conjunto com sua cabeça que vai para o lado. Deixando claro que ele estava morto.


Marie não aguentava tamanha dor em seu peito, então ela olha para os céus, entrelaça seus dedos, e faz a oração mais fervorosa que já havia feito em toda sua vida. Ela clama, roga e implora à Deus que ele devolva a vida de seu marido. Então um raio de sol se estende sobre ele, e algo extraordinário ocorre. As flechas começam a sair sozinhas do corpo de Gustav, e ele abre seus olhos cospe um pouco de sangue, mas estava vivo e bem.


E tudo que aconteceu depois disso é história.


Fim.