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Vigilante das sombras.


Por: BCWB


Acampar e fazer trilhas sempre foi um hobbie pra mim e meus amigos.

Quanto mais longe e mais difícil a trilha mais nos atraia. Fizemos trilhas de andar três, quatros até 5 dias por matas, solos acidentados, íngremes e em todos eles acampávamos no meio do nada.


Era o que nos dava prazer e adrenalina: uma fogueira a noite para aquecer, uma bebida para relaxar e muitas lembranças de viagens mais antigas.


Sempre era o mesmo grupo, então era tudo muito comum entre elas a história de uma trilha que diziam ser assombrada, com histórias assim é a que mais existe.

Mesmo assim era uma trilha legal. Mata praticamente fechada e no fim da trilha ainda tem uma caverna famosa, dizem que ela é linda, mas que poucos conseguiram sair de dentro dela com vida.


Contam que, até hoje, apenas dois exploradores conhecem essa caverna e conseguiram tirar algumas fotos do interior da mesma.


Em uma delas aparece uma tonalidade azul contrastando com rosa e um amarelo escuro. Um espelho d’água que reflete essas cores, alguns dizem ser como se estivesse olhando um quadro e de fato era.


Estes exploradores nunca deram entrevistas ou falaram com alguém sobre o que encontraram ou ouviram lá dentro, só algumas fotos foram publicadas.


Em uma das fotos tem a polêmica “sombra” de um homem. Na minha opinião, é a sombra do cara que estava fotografando (risos). Meus amigos riem quando falo que não tem nada de mais ali e insistem com história do tal Vigilante das sombras.


Confesso que achei bem criativo.


De tanto falar resolvemos juntar as tralhas e em feriado fomos os 5 como de costume fazer a “trilha do vigilante” como era conhecida.


Para mim era só mais uma trilha foda e a recompensa seria chegar na caverna e ver aquela paisagem da foto com meus olhos.


Depois de quase três horas andando mata adentro, Julia fez uma pergunta que nossa... Achei de uma bobagem sem tamanho:


-Mari, você sabia que tem um lugar dentro da caverna que desperta os desejos secretos?

Respondi rindo:

-Ah vá?!
-Primeiro é assombrada e agora faz você revelar coisas.
-Ahan...sei.

Comecei a rir e ela insistia em dizer que era verdade, que ao passar numa certa parte da caverna o que você tem de mais secreto tende a se revelar, desde a vontade de matar ou até mesmo de chorar ou beijar alguém.


Muita loucura para um dia tão cansativo.


Continuamos a caminhada e ao anoitecer paramos num ponto onde havia mais pessoas acampadas, acendemos a fogueira, comemos e bebemos um pouco de whisky para aquecer. Nesses lugares geralmente a noite é fria.


Dormi e acho que por conta das bobagens que minha amiga tinha contado tive um sonho tão estranho: eu e um homem estávamos num lugar estranho onde havia uma casa abandonada de paredes amareladas, com marcas de fuligem e bolor.


Entramos ali e de repente um ser começou nos perseguir, um ser estranho que causava arrepios. Enquanto corríamos esse que me acompanhava segurou minha mão e puxou para um quarto tentando me esconder.


Quando ele me puxou não sei como, mas os olhos dele fitaram os meus e num impulso... (ah deixa para lá).


Foi só um sonho e ainda temos muito que caminhar, precisamos chegar logo nessa tal caverna.

E assim foi. Andamos durante mais um dia com pouquíssimas paradas porque queríamos chegar logo. Chegamos a um lugar lindo, coberto por uma energia diferente, cheio de verde contrastado por uma imensa rocha que dá origem a caverna.


Chegamos lá por volta das 15:00 hs e todos estavam com a ansiedade a mil para entrar lá e ver se a lenda era verdadeira.

Comemos umas barrinhas bem rápido e entramos. Por cautela decidimos não nos separar, todos deveriam ficar juntos até porque só estávamos os cinco e se alguém se perdesse ficaria complicado.

Já na entrada da caverna era possível sentir que não era um lugar comum, seguimos juntos e a cada passo a vontade de conhecer parecia aumentar. Um silêncio tumular tomou conta de todos nós, acho que por medo do tal vigilante (risos).


Conforme entrava, eu ficava maravilhada com as cores. Eram exatamente como a foto. Aquilo tudo parece que nos hipnotizou e perdemos completamente a noção do tempo dentro daquele lugar.


Eram tantas belezas naturais e uma energia que parecia dois braços fortes nos abraçando e puxando mais para dentro.

Quando minhas pernas começaram a doer quis voltar e todos concordaram porque estávamos ficando sem água, foi aí que começou o pesadelo.

Teoricamente voltar seria apenas fazer o caminho inverso, mas no meio do caminho parecia que estávamos em outro lugar que não era o mesmo por onde entramos.


Tanto não era o mesmo que em uma fração de segundos a escuridão tomou o todo espaço onde estávamos, um breu e todos entraram em pânico. Acabamos nos perdendo.


Cada um acabou indo para uma direção, mesmo que tentasse achar a mão de alguém para segurar algo não deixava e nossas lanternas simplesmente não acendiam.


Saí andando e depois de andar 15 minutos escutei um amigo chamar, comecei a gritar para que ele tentasse pelo menos me achar e ele conseguiu, que alívio!


Depois de andarmos por mais ou menos uma hora e meia eu estava exausta, com sede e não aguentava mais. Foi então que decidimos parar e tentar ligar a lanterna.


Tentamos por algumas vezes e na última tentativa ela acendeu. Tentei iluminar ao redor e mais uma vez apagou sozinha. Acendi novamente e mais uma vez ao apontar para frente ela desligou, algo ou alguém não queria ser visto.


Ali com uma lanterna ligada arrumamos as coisas e dormimos. Depois de um tempo acordei com o Felipe assustado falando que um bicho passou por nós e desligou a lanterna.

Confesso que na hora não entendi nada, achei que fosse coisa da cabeça dele e voltei a dormir.


Agora quem sentia a presença era eu. Mesmo com o sono pesado, ouvi o caminhar daquilo. Parecia rastejar, enquanto Felipe e eu tentávamos encontrar algo no facho de luz da lanterna.


Senti um puxão que me jogou contra a parede. Felipe me pegou pela mão e saímos correndo sem saber par onde ir, só queríamos sair dali.


Estava tudo tão escuro e eu tropeçando em pedregulhos, quando caímos em uma lagoa, poça, sei lá o que era aquilo mas tinha um líquido estranho de textura densa.


Tudo ali estava me dando medo e aquela coisa ou ser continuava atras de nós, dava pra ouvir a respiração rápida dele.


Minhas pernas pararam de responder e cai, não conseguia levantar-me do chão. Dor, câimbras e medo me dominavam. Foi quando senti algo áspero subindo por meu tornozelo e a única coisa que consegui foi gritar.

Felipe desesperado me arrastou para um lugar que parecia ter a luz da lua e acabei apagando sem forças para lutar por minha vida.


Acordei dentro de um casebre com Felipe deitado ao meu lado. Onde estávamos?

Não faço a mínima ideia!


Só posso dizer que algo muito estranho aconteceu. Enquanto acordava comecei a olhar meu amigo e uma coisa me tomou. Quando percebi estava com a mão no rosto dele. Ele assustado levantou perguntando se eu estava bem, se lembrava que fui arrastada.


Quando olhei para meu corpo estava cheio de escoriações e ao levantar a cabeça vi um vulto passando pela janela quebrada do casebre. Felipe também percebeu e logo me puxou para um canto fazendo sinal para que eu ficasse em silencio, aguardamos e aquilo continuava rondando o casebre.


Estávamos colados, com os corações explodindo, morrendo de medo e foi quando aconteceu dos olhos dele fitarem os meus, frente a frente, eu contra a parede e ele me olhando.


Em segundos, ele segurou um de meus braços e com a outra mão minha nuca e nos beijamos. Sentia o coração dele bater como se fosse sair do peito...


Não sei quanto durou, mas foi tempo suficiente para aquilo que nos perseguia também ouvir as batidas de coração dele.


Olhei com muito medo, de cabeça baixa sem coragem de erguer os olhos.

Mesmo assim parecia vindo do inferno com a pele avermelhada, vestia uma roupa rasgada e seus olhos eram avermelhados, grandes e mostravam fome. Suas unhas eram tão afiadas que pareciam lascas de vidro quebrado.


Só conseguimos sair vivos dali porque no meio de tanto sangue e gritos ouvimos um assobio estridente, na hora aquela criatura demoníaca parou e parecia estar atento ao chamado.


Mais uma vez ouvimos o assobio estridente e ele olhando pra trás com um pedaço da coxa do meu amigo na boca foi embora.


Imediatamente eu e Felipe começamos a nos arrastar tentando sair dali. Agora eu puxava meu amigo com o pouco de força que havia me sobrado. Depois de um tempo andando ouvi meus amigos gritando nossos nomes e quase sem forças dei meu último grito.


Acordamos já dentro de uma ambulância a caminho do hospital e até hoje não sabemos de onde veio aquele ser e se ele era o tal vigilante das sombras ou apenas um demônio mandado para nos assustar e dar o recado que ali é o lugar dele.