• Michel Barcellos

Vote Nulo



A última vez que eu votei foi em 2010. Ou seja, eu não votei em 2018. Eu não votei no primeiro turno porque estava no hospital e no segundo turno porque estava passando mal. As duas vezes por causa de pedra na vesícula. Ainda assim, se eu quisesse votar eu teria que viajar cerca de 350 Km para a cidade onde eu sou eleitor. Eu nunca transferi meu título.


Eu nunca transferi meu título porque nunca considerei que meu voto pudesse fazer diferença na eleição de alguém. Em 2018 eu fiz campanha para Bolsonaro e para os candidatos que eu achava que deveriam ser eleitos nos outros cargos e poderia até ter me deslocado para Porto Alegre para ir votar. Mas eu achava que algo muito mais importante politicamente que ir votar era ajudar o meu candidato a tomar o partido ao qual ele se filiou, o PSL, pois, de todo legado de crueldades que Hitler deixou, duas coisas dele eu lembro que eram verdade: uma delas foi que ele não fundou o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, ele simplesmente se filiou e tomou o partido para ele – a outra coisa foi como ele percebeu que a arte moderna corrompia a sociedade. Por isso eu preenchi uma ficha de filiação ao PSL disponível no site deles, para pesar em número a favor do Bolsonaro; para ajudá-lo a ter peso nas decisões do partido e a fazer maioria nas suas propostas. Eu nem sei direito como funciona um partido, eu só queria ajudar.


E só acabei descobrindo que eu realmente estava filiado esse ano, quando alguém avisou que a Manuela d’Ávila estava em primeiro lugar nas pesquisas para a prefeitura de Porto Alegre e eu fui correndo no site do TSE ver se eu estava filiado, para concorrer contra ela. Mas eu não fui concorrer contra ela porque, além de eu não ser político eu não tinha a menor ideia de nada, não sabia onde era a sede do partido, não sabia quando era a convenção, não conhecia ninguém no partido e nem sabia nada de disputa eleitoral ou o que exatamente eu poderia fazer como prefeito. Eu estava em outro estado. Mas encontrei meu nome lá nos cadastros que estão no site do TSE. Não sei se me desfilio, se tinha mensalidade para pagar... só sei que o próprio Bolsonaro já se desfiliou.


O fato é que todos perceberam que não houve nenhum candidato a prefeito que agradasse realmente a direita. No máximo apareceram alguns que os eleitores engoliam. Muitos candidatos bem intencionados apareceram para disputar as vagas parlamentares dos municípios; alguns chegaram a me procurar. Mas eu não vi em nenhum deles o entendimento correto sobre o que está se passando no nosso país e contra que tipo de estruturas eles deveriam lutar caso fossem eleitos. Combinado a isso, também vimos que a capacidade deles de agregar votos foi baixa, provavelmente decorrente da diminuição dos ânimos dos eleitores do Bolsonaro. Todos mais ou menos perceberam que a ocupação de vagas políticas por pura e simples ocupação de espaço não modifica muito a realidade política.


Muitos têm noção de que o Brasil está paulatinamente sendo entregue ao governo mundial; muitos não. Dos que têm noção, a maioria não sabe como isso ocorre. Dos que sabem como isso ocorre, o número dos que conhecem seus aspectos gerais e particulares é ínfimo. A maioria está mais no plano das ideias.


O plano das ideias é um começo, mas não se deve parar por aí. Sem um trabalho intelectual as ideias não serão comprovadas, não serão esmiuçadas, nem serão condensadas em documentos técnicos para fundamentar ações de todas as profissões e funções que estão soterradas de ideologia. Por que os políticos entregam a soberania do nosso país? Porque há material técnico para embasar suas ações nesse sentido. Por que a cultura pop entrega uma enorme quantidade de produtos carregados de ideologia? Porque a produção intelectual incentiva a cultura pop a disseminar essas mensagens.


Em entrevista Abraham Weintraub contou como ele teve que formar um think tank para estudar uma proposta política que ele queria apresentar. Ele expôs um meio de ação que a maioria parece ignorar. Não se pode esperar que um trabalho concreto seja apresentado sem que antes sobre ele tenha-se profundamente estudado e pensado. Olha a descrição da Wikipedia sobre think tank:


Um think tank, laboratório de ideias, gabinete estratégico, centro de pensamento ou centro de reflexão é uma instituição ou grupo de especialistas de natureza investigativa e reflexiva cuja função é a reflexão intelectual sobre assuntos de política social, estratégia política, economia, assuntos militares, de tecnologia ou de cultura.


Um think tank presume intelectuais assalariados para examinar determinados assuntos. Não é um grupo de estudos do Whatsapp. Ou seja, um conjunto de pessoas que leu O Mínimo Que Você Precisa Saber Para Não Ser Um Idiota não é capaz de colocar em prática ideias, porque não há ideias! As ideias estão apenas no âmbito da imaginação. Ninguém teve o trabalho de estudar como deveria ser feito para colocar uma ideia em prática, quais as origens dessa ideia e quais suas consequências. Aí assumem um cargo político e não conseguem fazer nada daquilo que achavam que iriam fazer. Não sabem como funciona O Mecanismo, não sabe o que há nele de legítimo, o que há de organismos ilegítimos dentro dele. Quando muito, querem implodir algo que não sabem onde se localizam as estruturas.


De fato, se daqui a dois anos houver uma meia dúzia de pessoas que tenha entendido tudo o que tenha que ser feito, elas não estarão em número suficiente para tomar o estado. Então eu digo: nem se candidatem! Primeiramente, porque intelectuais dificilmente são líderes carismáticos. Então, ou tu sabes de algo ou tu sabes convencer os outros sobre algo que te contaram. Além do fato que eu duvido que haverá meia dúzia de pessoas assim daqui a dois anos. Se houver um será muito.


Agora, se ninguém se candidatar e se ninguém votar nos candidatos que se candidatarem uma situação restará demonstrada: o povo não acredita mais no sistema. A “festa da democracia” é um circo onde o povo é o palhaço. O sistema faliu e ele precisa ser recuperado; reconstruído; ou destruído e substituído; alguma coisa precisa ser feita e deve-se descobrir o que é.


Com um recado como esse passado pelo povo, endinheirados finalmente vão tomar consciência de que aparecerem fardados como o Zé Carioca em eventos de promoção de partido que nunca é registrado não contribui em nada na luta contra a perda da soberania do nosso país, e que a cultura e o conhecimento técnico e intelectual urgem antes da tomada de ações políticas.


Em outras palavras, vota nulo se tu não quiseres que a ONU ou a China te condenem à miséria, à fome, à prisão domiciliar, à impossibilidade de confissão e de comunhão pelo fechamento das igrejas, à perda da tua vida e da tua alma.


Vote nulo em 2022.